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A partida


O bairro chamava-se Redenção, mas era conhecido por todos os moradores das redondezas mais próximas pela alcunha de Planeta dos Macacos, devido ter nascido ao mesmo tempo em que entrava e cartaz o filme americano. Era riso certo dizer, que morava no Planeta dos Macacos.

Mamãe, que sonhava com uma casa própria, não perdeu tempo ao se juntar com algumas amigas para conseguir um pedaço de terra no Planeta.  E também não demorou mais que um dia para fazer a mudança definitiva. O terreno tinha doze metros de frente por trinta e seis de fundo, com a maior parte caindo em  ribanceira. Apesar de não estar totalmente no plano, a conquista tornou os dias de mamãe um  jardim do Éden. Era o adeus definitivo aos aluguéis e às muitas mudanças, que lhe havia assombrado a alma durante vários anos. Como ela andava feliz com o barraco em piso de talas de buriti, coberta de palhas tradicionais da Amazônia e voltada para a natureza dos embaúbas!

Fomos os primeiros moradores do Planeta, contando com a família da Xeraxera, uma mulher escanifrada (resultante da fome diária que passava)  de olhos fundos e pele amarela esverdeada, moradora dali havia muito tempo antes de nós e a família de seu Zé com as suas onze crianças. Apesar da solidão em relação aos demais bairros e casebres estávamos bastante felizes.

Na época da invasão contava onze anos e minha irmã nove. Éramos carne e osso tanto nos aparência quanto nos costumes e desejos. Não ficávamos um minuto longe uma da outra. E apesar da nossa proximidade ser algo natural, mamãe não cansava de nos aproximar mais ainda, como se algo em seu juízo de mulher ainda na casa dos vinte e poucos  anos, estivesse lhe lembrando do tempo curto adiante e em contagem regressiva.

O ano de 1982, chegou bravo, com um vento angustiado, que passou por nós em meio a avenida Brasília, sem pedir licença. Até tentamos chegar na casa da vovó Beca, antes da meia noite, mas que nada ! Rompemos na rua. “Passar o ano na rua é mau-presságio“ - disse mamãe. E sem dúvida, ela tinha razão. Foi aquela frase o inicio de muitas inquietações, várias idas e vindas ao hospital público, diversos internamentos, AVC, coma e óbito dali a quatro meses.

Havia se passado quase sete anos quando mamãe para melhorar a vida,  decidiu vender uma parte do terreno tornando possível a construção de um outra pequena casa na parte debaixo do barranco de nosso terreno. Para acessá-la foi preciso construir uma escada de barro do lado direito do ribanceira para deixar espaço para os pés de macaxeira no centro. Eram plantas benditas, verdadeiras fornecedoras de mingaus quando já não restava mais esperança de dinheiro para comprar peixe ou frango. Com o dinheiro da venda do terreno foi possível cobrir esta segunda casa de zinco, pôr paredes em madeira e pintá-la de verde, além de inserir um pequeno jirau no fundo para lavagem dos pratos. Para mobiliar internamente não sobrou nada, então as louças continuaram em meia dúzia, a cama de casal perneta, as redes em número de dois e o ventilador sem a parte frontal.  Era tudo que mamãe havia conseguido adquirir desde a invasão até aquele dia, descrito em sua carta final datada de 04 de abril endereçada aos juízes caso alguém quisesse tomar de suas duas filhas. Mas da ribanceira... seu olhos não lembravam desses bens materiais no dia em que definitivamente teve de dar adeus àquele local com o qual sonhara por muitos anos ! 

Entre todos os adeus que a vida já me permitiu vislumbrar aquele foi o primeiro e o mais marcante. Veio acompanhado de um olhar profundo, saudoso e altaneiro, do alto do último lance de uma escada em uma ribanceira para bater diretamente em minha alma: “Não volto mais para casa. Cuide da casa.  É tudo que vai ficar para você e sua irmã. Cuide da sua irmã. Não a abandone nunca”. E para completar o quadro a frase foi dita banhada com lágrimas, que lhe adentraram a boca rumo ao coração como talvez a única saída para conter a dor da partida. Tudo que consegui fazer foi abaixar a cabeça para receber aquela aquele amor.

Junto com mamãe fomos para a casa da vovó Beca, deixando para longe o único bem pelo qual ela havia lutado ferozmente. Por um mês exatos ficamos ao lado dela dia e noite. O espaço total era de um vão de casa com redes entrepassadas e um pequeno quarto onde ela repousava numa cama de solteiro. Era ela de AVC , eu e minha irmã, uma de cada lado, sentadas ao lado, durante todo o tempo. Foram os momentos mais mornos vividos antes o adeus final. E num desses momentos resolvi fazer uma pergunta, pois achava que AVC não deixava o doente ouvir nada. Tolice, o doente ouve, pelo menos ela ouviu e reagiu: “E agora mamãe , que será de nós sem a senhora ?. Por que achou que poderia ir embora tão cedo com apenas trinta e dois anos ?”. E pasmem ! Num ímpeto de muita força, mamãe virou os olhos, antes parados olhando para o teto, diretamente para mim e verteu uma lágrima que lhe escorreu até o pescoço e novamente os olhos voltaram ao teto. Foi preciso muito amor para mover aquele corpo inerte para responder minha pergunta : “ Não estou deixando você, minha filha. Só não posso  inverter o curso da natureza, tenho que seguir viagem em obediência ao Pai, mas estarei com você sempre”.  E eu só pude responder com outra lágrima àquele momento desesperador. 

Dali uma semana, como um passarinho sem voz após ter cantado tanta prosa ao meu coração, ela se juntou ao universo. Foi ter com Deus ! Fiquei órfã de mãe e de pai. Não chorei no velório. Não chorei no enterro. Fechei a porta das águas dos meus olhos deixar a correnteza interior trabalhar.  Enterrei ali o corpo daquele meu amor e levei para casa o espírito amoroso, que jamais me abandonaria.

Não haveria mais tempo para ficar triste. A vida estava à minha frente me pedindo para sair á luta por um caminho diferente.

Um mês depois do enterro voltei para a casa do Planeta com minha irmã e avó. O sol batia forte como se me dizendo : Espera, que te aquecerei ! Olhei para o céu, descendo a escada e falei com Deus: “ Olha, Tu levou minha mãe, então Te vira pra me ajudar de verdade, pois já não tenho mais ninguém além de Ti”. Acho que Ele ouviu mesmo, pois não deixou sequer um sonho meu faltar desde então. Absolutamente tudo veio, hora a hora, dia a dia, ano a ano.

A casinha ainda está lá na Amazônia, agora em cor desbotada, deve ser pela saudade.  E quando estou de férias naquela cidade, faço questão de me sentar nos mesmos degraus do adeus por duas razões para lembrar daquele olhar tristonho e e responder: “Hey mãe, fica tranquila, deu tudo certo”.

Denilza Munhoz.

Pscoterapeuta, poliglota e professora de línguas


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