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Além das palavras

Geralmente discutimos por causa de palavras e não de ideias, a discordância é muito mais de aparência que de fundo. Muitas vezes estamos discordando devido a palavras e não devido a ideias realmente diferentes. Um exemplo é se o Espiritismo é ou não uma religião e a resposta dependerá daquilo que as pessoas entendam por religião. Outra fonte de discordância é quando usamos axiomas ( fundamentos de uma afirmação) para justificar determinada declaração. Estas questões se tornam realmente importantes quando pessoas formadoras de opinião se confundem e confundem aos outros, voluntariamente ou não. São formadores de opiniões, por exemplo, pastores, padres, palestrantes espíritas, atores, políticos e quaisquer outras que possuam alguma influência no meio social.
Percebe-se um tratamento superficial em relação aos conceitos. Tal se deve a um não aprofundamento filosófico do tema, a uma reflexão inadequada da questão, a uma tendência para se repetir o que se houve e concordar com algo que alguém disse. Outras vezes admiramos tanto uma pessoa que não conseguimos perceber falhas em uma ideia ou no comportamento de tal pessoa. Outra fonte inesgotável de erros é apegarmo-nos demais a uma concepção, simplesmente, por ser nossa concepção. Gostamos de nossas ideias, quer sejam boas, razoáveis, imprestáveis, ridículas e mesmo nocivas. Essa última fonte de erro é a mais difícil de ser percebida e, portanto, solucionada.
A precipitação é também fonte frequente de erros e mal
   entendidos. Muitas vezes começamos a abordar um assunto com alguém ou alguém começa a falar sobre determinado assunto conosco. A pessoa ou nós mal acabamos de falar e o outro ou nós mesmos passamos a dizer isso e aquilo. O problema é que nunca tínhamos refletido sobre o assunto, nunca tínhamos nem pensado no assunto, não sabíamos   quase nada do assunto e começamos a falar como se fôssemos professores catedráticos no tema. Tem gente que quer discutir técnica cirúrgica e questionar o cirurgião experiente e muito bem   conceituado sobre a cirurgia a que será submetido. Chegando ao cúmulo de indicar qual a melhor técnica cirúrgica   para o seu caso, técnica que viu na internet. Não seria melhor refletirmos melhor no assunto que acabamos de ouvir ou nos restringirmos ao nosso campo de competência ?
Vamos abordar o erro de conceito como primeiro exemplo. A palavra relacionamento pessoal é confundida com relacionamento imparcial ou justo. Muitos dizem que Deus não tem um relacionamento pessoal conosco ou que não é um ser pessoal. Na
  verdade  elas querem dizer que Deus não dá privilégios, não tem filhos preferidos, mas isto não é ser impessoal, é ser imparcial. O cristianismo nos apresenta um Deus pessoal, aliás, quanto Jesus afirma que Deus é nosso Pai, ele afirma que Deus é um ser pessoal. Nada mais pessoal que um pai. Por que Deus é um ser pessoal? Que é um ser pessoal? Um ser pessoal é todo ser consciente, que tem discernimento, que escolhe entre o bem e o mal, entre o certo e o errado. Um homem e uma mulher são seres pessoais, uma formiga é um ser impessoal por que não tem consciência de si mesma (pelo menos até onde eu saiba).
Outro aspecto é o não aprofundamento de um conceito. Usemos o Super-Homem dos filmes de Hollywood como exemplo. Sabemos que ele é indestrutível, certo? Significa que ele é invulnerável? Muitos pensarão que sim, pois, acreditarão que indestrutível e invulnerável são a mesma coisa. O fato é que o super-homem é apaixonado por Lois Lane, sua colega de trabalho, e os inimigos do super-homem usam esta vulnerabilidade para combatê-lo. Apesar de indestrutível, ele tem um ponto fraco, vulnerável. Outros acham que ser onipotente significa ser capaz de tudo fazer, mas Deus e o super-homem são incapazes de machucar Lois Lane. Onipotente é ser capaz de fazer todas as coisas possíveis e coerentes com a natureza daquele que é onipotente, não é ter o poder de fazer todas as coisas. Quem tem o poder de fazer todas as coisas no trânsito? O bêbado.
Vamos supor que o super-homem leve dois mil tiros de fuzil e dois mísseis nucleares sejam detonados em sua direção. O que acontecerá com o nosso herói? Nada, ele é indestrutível. Significa que não levou nenhum tiro de fuzil? Significa que os mísseis não foram detonados? Já ouvi em inúmeras palestras, proferidas por excelentes pessoas e palestrantes a seguinte afirmação: Deus não perdoa porque não se ofende, você só tem de perdoar caso se sinta ofendido. É o mesmo que dizer que o super-homem só levará tiros quando puder ser machucado, quando puder morrer. Ora, super-homem leva tiro quase todo dia. Você só pode perdoar quando for ofendido, se você se sentir ofendido ou não, essa é outra questão. Se roubam algum dinheiro de sua carteira há dois anos e você só percebeu hoje, isso não significa que você não havia sido roubado antes, sendo hoje o primeiro dia que você é roubado. A fim de você ser roubado, você não precisa se sentir roubado. Da mesma forma você não precisa se sentir ofendido para poder perdoar ou ter de perdoar. A oração do Pai Nosso nos ensina: Pai ( Deus) perdoai as nossas ofensas assim como temos perdoado o que nos  tem ofendido. Convenhamos que se Jesus nos ensinou a pedir perdão a Deus, é porque Deus perdoa. A não ser que Jesus tenha se enganado ou que conheçamos melhor Deus que Jesus o conhece.
Outra fonte de erro é a admiração que temos por alguém. Se alguém admira o Papa, então, tudo o que o Papa diz tem que ser certo. Se alguém admira Chico Xavier tudo o que Chico disse durante sua admirável existência é certo. Diferente de todas as pessoas (exceto Jesus) que passaram na Terra, Chico nunca disse algo errado ou se expressou de forma equivocada? Quantas vezes falamos algo ou escrevemos algo que é o contrário ao que queríamos dizer? Alguém nos questiona: você disse isso? E respondemos: não foi bem isso que eu quis dizer, mas acabou saindo assim, desculpe, me expressei mal. A fim de que não me entendam mal: admiro o Papa e para mim, Chico Xavier é a pessoa mais admirável que conheço tanto em comportamento
  (moralidade) como por suas ideias.
Muitas vezes ouvimos a mesma coisa de tantas pessoas diferentes, de tantos livros diversos, de diversos autores que, no final, acabamos concordando. É um bombardeio mental. Não é comum se ouvir que para Deus todos são iguais, que Deus trata a todos da mesma forma? Mas isso seria um erro descomunal. Deus nos trata individualmente, leva em consideração nossos sentimentos, nível evolutivo, intelectual, cultural e nossas intenções. Quando mais consciente, quanto mais esclarecidos, tanto mais responsáveis seremos por nossos erros. Deus trata a todos com justiça e imparcialidade, mas nunca da mesma  forma.  A lei humana se adapta gradativamente às leis de Deus. As pessoas
 idosas tem tratamento diferenciado nas filas, nos transportes e nas vagas de estacionamento. Pessoas diferentes, tratamento diferente. Nada mais amoroso e justo.
Por último, a maior e mais poderosa fonte de erros: nós mesmos. Temos um amor imenso por nossas ideias. Ficamos contrariados quando não pensam de forma igual a nossa. Temos a tendência de achar que, os que não pensam como nós, são burros, inimigos ou suspeitos. Não existe motivo algum para acreditarmos que o nosso pensamento é sempre melhor que o de outra pessoa, embora, possa ser algumas vezes, como também estamos errados outras vezes. Acreditamos que somente nossa religião tem verdades, as outras são questionáveis. Claro que nem todas as religiões são verdadeiras, mas não é porque você tem a sua religião, que a sua religião é a verdadeira ou a única verdadeira ou que só tenha verdades.
O maior problema é o orgulho, a vaidade. Idolatramos a nós mesmos. Esta é uma das razões da Bíblia condenar a idolatria. Percebam que o fã não vê defeito em seu ídolo.  Quando somos fãs de alguém, esse alguém nunca erra, damos uma desculpa para seus atos mais abomináveis ou para suas ideias mais loucas. Podemos admirar alguém, devemos admirar os homens e mulheres de bem. Mas o fã é um ser geralmente menos esclarecido e levado pela emoção. Não é por outro motivo que existem mais fãs jovens que idosos. Não é porque alguém canta bem que será um ótimo marido ou porque alguém é lindo ou linda fisicamente que esse alguém é honesto e equilibrado emocionalmente. Tampouco devemos confiar ou admirar apenas porque esse alguém é médium famoso ou um líder carismático.
Neste mundo confuso, ou melhor, neste mundo de pessoas e conceitos confusos, como poderemos não nos confundir? Como podemos nos nos confundir quando nós mesmos somos um tanto confusos?  Bem, não existe uma fórmula única ou infalível, pois, dependerá de muitas variáveis e da fidelidade que coloquemos na busca da verdade. Se você acredita que tudo é relativo, que a verdade é super-relativa ou sempre relativa, então, seu problema  está  "resolvido", ou melhor, você "nunca" terá problema. Entre várias idéias contrárias, escolha a que mais lhe agradar ou faça um sorteio de ideias concorrentes e aceite a concepção sorteada. Se não existe a verdade ou se tudo é relativo, então, qualquer coisa serve.
Se você acredita na verdade, que a verdade é possível de ser alcançada, que existem coisas relativas, mas que nem tudo ou quase nada é relativo, então, você tem vários problemas pela frente. O primeiro problema somos eu e você. Não podemos buscar a verdade apenas intelectualmente, devemos amar a verdade. Se um fato ou argumento contraria as nossas idéia, então, abandonemos nossas idéias e fiquemos com os fatos ou com a coerência dada pela razão. Fazer isso é difícil devido ao orgulho e ao egoísmo que corroem a inteligência mais brilhante.
Não é porque uma idéia é agradável à nós, que essa idéia é verdadeira. O respeito que sempre devemos às pessoas nem sempre precisa se estender ao campo de suas idéias, mesmo que essa pessoa sejamos nós mesmos.  Razão, intuição, respeito à opinião alheia, amor à Deus acima de todas as coisas ( acima de ideias, de pessoas e de você mesmo), tudo isso deve se harmonizar, deve ser combinado num todo coerente. Ao nos dispormos para tal, certamente, Deus e os bons espíritos ( anjos da  guarda) nos auxiliarão. Um mundo além das palavras.

João Senna.


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