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Análise das críticas aos textos espíritas

O Espiritismo é uma doutrina de livre exame. Não existem oráculos ou autoridades que nos digam como interpretar a codificação espírita e os livros espíritas. Não existem médiuns ou personalidades espíritas por mais notáveis, que possam determinar a melhor ou a correta interpretação de um texto, afirmação ou conceito. Somos livres para, após ler e refletir, tirarmos as consequências filosóficas, religiosas ou científicas do que lemos. Se a interpretação é livre, se não existem especialistas em Espiritismo, como determinar qual a interpretação correta da codificação? Quem irá nos esclarecer sobre a veracidade de um romance ou afirmação de natureza espírita? Sendo livre a interpretação, o Espiritismo irá se tornar um conjunto de opiniões pessoais e ficará ao gosto da supremacia de instituições ou líderes carismáticos? Prevalecerá a opinião dominante, sem que isso diga nada a favor de sua veracidade?














 
Se Kardec encontrou a melhor metodologia e o mais confiável critério para a elaboração da teoria espírita, o que nos fornecerá a chave para a sua adequada interpretação? Uma vez elaborado o Espiritismo, o que nos garantirá a sua melhor compreensão? Em quem confiaremos? Kardec responde: a razão de cada um e a experiência de incontáveis grupos. Declara no início de O Livro Dos Espíritos: "fé inabalável, somente o é, aquela que encara a razão face a face em todas as épocas da humanidade" equivale dizer que devemos ter fé naquilo que entendemos racionalmente e que não entra em contradição com o avanço do conhecimento científico e filosófico tanto no passado, nos dias de hoje e nos dias futuros. É realmente o critério de máxima exigência e confiança que se pode ter em uma doutrina.
Muito se tem escrito e falado a favor e contra o Espiritismo. As críticas desfavoráveis que se originam fora do meio espírita, são naturais e esperadas e nada mais fazem que divulgar o que julgam combater. As pessoas presas à sistemas e preconceitos continuarão a ser contrários às ideias espíritas, mas as que estão isentas de preconceitos e desejosas de conhecer a verdade ao estudarem de perto o espiritismo o aceitarão, porque nada é mais convincente que a verdade. O real problema surge quando as críticas contrárias partem do próprio movimento espírita, os espíritas combatendo outros espíritas ou sendo contrários à textos clássicos da literatura espírita e da própria codificação. 
> Como poderemos separar as críticas pertinentes das destituídas de sentido? Se parte do movimento espírita é favorável à determinada prática, enquanto outra parte é contrária. Se grupos espíritas são favoráveis à determinada produção mediúnica e outros grupos são frontalmente contrários, como sabermos onde se encontra o lado certo? Creio que o primeiro passo é reler a codificação espírita, pois, o ensino dos espíritos superiores é, seguramente, mais confiável que o de uma pessoa isolada ou mesmo instituições.
O segundo critério é avaliar as justificativas dos críticos aos postulados ou práticas espíritas. Suas colocações destinam-se a discutir ideias ou pessoas? No primeiro caso podemos nos dispor a refletir sobre elas, mas no segundo devemos descarta tais críticas, pois, o Espiritismo e o verdadeiro espírita não discutem pessoas e sim idéias e práticas dentro do movimento espírita. Quem faz a crítica elabora argumentos racionais ou especulativos apenas? Apela para o argumento da autoridade somente para nos impressionar?  Descreve textualmente o parágrafo ou frase que julga estarem erradas ou, simplesmente, faz afirmações genéricas? 
Li hoje críticas desfavoráveis à Léon Denis, considerado o continuador de Kardec no plano filosófico. Autor respeitado e, seguramente, um dos clássicos do Espiritismo. As críticas foram vagas e pessoais, a própria figura do autor é desprezada ou relativizada em sua importância e tido como uma pessoa que se afastou da codificação espírita. Seu próprio estilo literário é questionado. A maior fraqueza desta crítica é não especificar onde Léon Denis se afastou da codificação. Todas as afirmações foram categóricas sem jamais se estabelecerem em um argumento racional. 
> Por que iríamos abandonar um espírita consagrado como continuador de Kardec, uma obra de raríssima beleza lírica e profundidade filosófica para nos aventurarmos a crer em colocações não racionais, repletas de adjetivos e genéricas? Como não desconfiar da competência intelectual do autor do texto que tece suas críticas sem embasamento ? Deveremos acreditar pelo simples prazer de acreditar? Uma crítica bem fundamentada não pode ser um simples falar mal ou um desabafo anti-intelectual, raivoso e melodramático. Se alguém deseja ser levado a sério, deve ao menos despertar em quem lê ou ouve o beneplácito da dúvida. Palavras bonitas e abundância de adjetivos já não impressionam tanto. 

João Senna: médico, escritor e palestrante


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