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É CERTO SER ERRADO ?

  • Vivemos uma época de grande expansão do conhecimento. Estudos revelam que a cada cinco anos dobra a quantidade de conhecimento e some-se a tal fato a facilidade e a velocidade com que o mesmo se dissemina. Bem, isso não é novidade e não precisaríamos comentar o óbvio. O problema é que o óbvio, por ser óbvio, nem sempre é percebido. Hoje, qualquer pessoa pode escrever e falar ao grande público. Se digo qualquer pessoa, não quero com isso desmerecer ninguém, mas apenas dizer que nem sempre o que se diz na tribuna ou para o grande público das redes sociais é algo que se ensina ao próprio filho. Hoje, como no Velho Oeste, o conhecimento e os meios de comunicação são terra de ninguém.
    Certamente, se a maioria dos que se aventuram a exporem sua "sabedoria" à opinião pública através de blogs, email ou palestras estivessem preparados para tal atividade, não haveria problema. Mas a questão é que tais precauções quase nunca são respeitadas. Fala-se de física quântica com a mesma naturalidade com que uma cozinheira revela segredos culinários para sua filha. Não é preciso nem saber o que é a tal de física quântica e já se fala em salto quântico, passe mediúnico quântico, sucesso quântico e, ultimamente, corrupção quântica. Aventura-se em quaisquer áreas do conhecimento após a leitura de um único livro. Não haveria qualquer perigo se a pessoa que fala ou escreve expusesse sua "sabedoria" como sendo uma opinião e não uma verdade revelada por Deus. E não haveria inconveniente algum se a plateia que os ouve soubesse separar opinião de fato, desejo de verdade e que no fim, todos saíssem mais esclarecidos ou, ao menos, pensativos.
    Recentemente, em um Reino Distante, ouvi certas colocações em uma palestra. Primeiramente, a palestrante nos ensinou que em termos de comportamento não existe certo ou errado, que tudo é relativo na vida e que não há mais local para preconceitos em um mundo pluralista e democrático. O que é certo para você, é errado para mim. Errado? Comecei a ficar confuso na palestra...Lembrei-me da minha professora de português ou de minhas provas de matemática e história e fiquei triste de não ter sabido de tais verdades antes, pois, poderia ter pedido revisão das provas, revelando à insipiência de meus mestres que, afinal, tudo era relativo e que, portanto, deveriam reconsiderar minha nota e aumentá-la em respeito à verdade recém descoberta: não existe o certo e o errado.
     Desconfiando da minha inteligência no início, tentei reconsiderar minhas velhas e superadas suposições de que existe o certo e o errado, a verdade e a mentira e todos  essas esquisitices de uma geração que está quase no fim. Ao olhar para o rosto dos cerca de oitenta ouvintes, fiquei muito mais preocupado ao perceber a expressão de alegria e aprovação da inebriada platéia que parecia ter presenciado a vitória de seu time em final de campeonato baiano de futebol. Pensei comigo mesmo: estaria enganado todos esses anos? Afinal, quem falava era uma professora de faculdade, uma quase senhora de aparência distinta. Estaria eu com algum distúrbio mental todos esses anos para não perceber que não existem o normal e o patológico, o certo e o errado? Que não haviam comportamentos auto  destrutivos e que tudo, afinal, era apenas uma questão de perspectiva?  Faltando cinco minutos para terminar a palestra, a emérita professora colocou uma tabela apontando os comportamentos inadequados que todos nós temos. Surpreso me lembrei que ouvira em algum lugar a poucos minutos que não existiam verdades ou certezas e, aliviado percebi que não era apenas eu que estava confuso. A confusão era geral e, infelizmente, somente eu estava não somente confuso, mas também perplexo.
    Uma questão não se encontrava respondida: por que é tão atraente acreditar-se que não existe certo e errado, o que equivale dizer que não existe a verdade ou que não existe uma forma coerente de se viver ou se comportar? É uma resposta que precisa ser "respondida" com muito cuidado, pois, não somos capazes de penetrar a mente das pessoas para descobrir os motivos e, tampouco, temos esta intenção. Acreditamos que todos podem cuidar da própria vida. O problema é quando convicções particulares se tornam públicas. Neste exato momento, o que eu digo ou que você disser, serão patrimônio comum. Não é possível expor ideias a pessoas que você não conhece e acreditar que, por isso, todos devem concordar. 

    É, ou parece ser, um pouco antipático falar de comportamento adequado e inadequado, coisas certa e coisa errada. Talvez, essa sensação se origine da intolerância religiosa, da luta política pelo poder sem considerar os reais interesses do público. Talvez, por encontrarmos muita hipocrisia em muitos que expõe a moral para o outro e não a aplicam em si mesmos. Todos estes fatores são verdadeiros, mas impedem que exista a verdade? A hipocrisia de uns, desmerece a sinceridade de muitos? O fato é este: impossível viver como se não existissem valores morais objetivos, onde o certo e o errado são reais e não apenas pontos de vista. Não vivemos apenas baseados em opiniões e, nas questões importantes queremos certezas, não palpites. 

    É possível viver acreditando que a pedofilia é apenas um comportamento não aceitável, por não ser comum em nossa sociedade? É possível aceitar que as mulheres na Etiópia tenham parte de seu órgão genital externo retirado para que nunca sintam o que é dado aos homens sentirem? É possível defender tal costume bárbaro alegando fatores culturais e deixar as jovens entregues a própria sorte? Muitas morrem de infecção, todas sentem dor e todas terão problemas psicológicos inexistentes em outros países. É aceitável que as crianças do sexo feminino em partes do oriente não possam estudar, sob a alegação de fatores religiosos que não eram praticados há um século atrás e que agora surgem do nada? 

    Certamente que não sou eu que irá impor certezas e valores para outras pessoas, mas entre saber conviver com a diferença e acreditar que não existam comportamentos ou ideias contraditórias ou claramente funestas, vai uma distância tão grande como a distância que existe entre uma demonstração matemática e promessa de político feita próximo à eleição. 

    A virtude da tolerância não pode ser usada para o culto ao relativismo moral e comportamental. Na vida privada cada um poderá fazer o que achar melhor, mas quando ideias e comportamentos saem da vida pessoal para se imporem à todos, nessa etapa deve o indivíduo considerar a própria consciência e a racionalidade de que dispõe, sob pena de permitir que outros acabem por dominar o seu modo de ser, pensar, sentir e se comportar, sob pena de imporem a seus filhos e amigos algo que você sabe ser errado.


    João Senna.

Médico, escritor e palestrante,

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