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Subjetivismo insustentável

Joseph Campebel, possivelmente, o mitólogo mais destacado de nossa época declara: toda sociedade se organiza ao redor de ídolos, de seres e ideais comuns onde todas as aspirações se dirigem. Uma força invisível coordena todos os esforços na organização da civilização. Em seu livro, O Poder do Mito,  informa que a mitologia é idêntica em todos os povos, desde a explicação da origem do mundo ao coroamento do herói, todas as lendas contam as mesmas histórias e as diferenças são apenas nas imagens utilizadas.

Esclarece o autor citado que as civilizações começam o seu declínio exatamente ao dar um valor relativo aos mitos e arquétipos para, finalmente, rotularem tais concepções como irracionais ou simples explicações de natureza infantil. Nesta fase já não existe a figura do velho como detentor da sabedoria, mas apenas um estorvo biológico que teima em persistir. Os heróis se esfacelam e ninguém procura ser ou ao menos aparecer como portador de uma nobreza ou de um ideal superior alcançado por poucos. Na medida em que se deseja ser grande, obtemos a visão de uma grandiosidade possível. Mas, nesta etapa final das civilizações em ruínas,  já não existe a figura do herói e o individualismo, com seu conjunto de subjetividade e relativismo, invade o ser social que, afinal, se dilui numa busca solitária  e indefinida de uma verdade pessoal.

Duas forças de natureza ideológica, numa luta não armada, atuam para alcançar a hegemonia na sociedade contemporânea: o homem ideal X o homem subjetivo. O ser ideal é transcendente, pois, é aquele que se dirige para progredir indefinidamente na busca de valores cada vez mais perfeitos, mas valores já existente no mundo que se situa acima do homem e para onde todos devem se dirigir. O papel do indivíduo é realizar ente homem transcendente dentro de si mesmo. É descobrir-se, dominar sua natureza animal, um ser que já existe em potência, um ser não inventado, mas que se revela na busca da perfectibilidade.

O homem subjetivo, ao contrário, é aquele que não existe em potência. É o que não existe como busca, mas se inventa. É o homem prático, não se dirige à valores superiores ou que se harmonizem com a realidade do universo, mas um homem que apenas inventa a si mesmo. É um ser antes de tudo que se origina do desejo e não de um sonho. O certo é o que funciona e a verdade será aquilo que se identificar com seu desejo e não ao mundo. Não é o herói, mas o homem prático, que se "dá bem na vida"

As duas concepções são antagônicas, pois, se originam de premissas diferentes. Se admitirmos que o homem é um projeto a se desenvolver, que possui uma natureza intrínseca, que é a sua própria essência, então, caberá a ele descobrir para que vive e buscar viver de acordo com uma finalidade que não se encontra nele, mas que deu origem ao mundo: local onde este homem deverá revelar-se a si mesmo. Esta premissa levará fatalmente ao herói, ao homem e mulher ideais. Seres que não buscam a subjetividade, mas a objetividade do indivíduo como um "objeto" do mundo, que revela um propósito que não se estabelece no simples desejo ou em forças sociais, mas ao contrário dirige todas as forças deste ser que se descobre aos poucos. Nasce o homem ideal.

O ser subjetivo é o que nasce do próprio desejo ou que se fez pelo acaso evolutivo, pelo menos a evolução como a entende a ciência oficial. Este ser é tão transcendente quanto o mosquito da dengue. É um ser inventado pela cultura, pode ser o que quiser, buscar um caminho que chamará de seu apenas por simpatizar com este caminho. Não é um ser que se descobre, mas que se inventa. Não descobre a si mesmo, pois, não há nada para descobrir, porque não existe uma essência, um eu ideal para onde se dirigir ou possa revelar-se. Este homem terá valores e ideais, mas inventados por ele mesmo. Nascerão do desejo ou de forças sociais que o dirijam como um barquinho de papel que as crianças jogam na correnteza da rua nos dias de chuva.

A filosofia materialista busca o homem inventado.O comportamento certo será o que não transgredir o código penal e este será o limite onde cada um fará e buscará o que achar melhor. O ser subjetivo nascerá das forças sociais mais poderosas onde grupos tentarão impor ideias e comportamentos como aceitáveis, pois, o ser que se inventa não reivindica a verdade, mas aquilo que funcionar ou desejar. Deseja-se dar a felicidade de forma rápida, pois, nessa visão de mundo um porco feliz terá mais valor que um homem triste, pois, o porco deu certo. Nesta realidade de mundo o homem será tão pleno e feliz quanto o barro da terra o permitir. Não será grande ou pequeno porque não terá um tamanho ou modelo para se comparar.

A filosofia espiritualista busca o homem que se dirige ao seu próprio encontro. Não é um ser original ou que tentará impor suas ideias porque suas ideias só poderão ser suas se existirem antes na estrutura do mundo e do homem que buscará descobrir o que deve ser e não apenas o que deseja. Não terá vontades, ou melhor, sua vontade será tornar-se melhor. Para o cristão o modelo será Jesus, mas o próprio Cristo não será modelo para si mesmo, pois, como declarou: minha vontade é fazer a vontade de meu Pai que está nos céus. Este homem terá a liberdade do tamanho do universo e terá como lei a estrutura do próprio universo e não será estranho ao mundo. Mergulhado em sua estrutura espiritual não se tornará um nada ou um sonho inútil como queria Sartre ou uma ficção do ideal como declara Freud. Não é o super-homem de Nietzsche, mas um filho de Deus igual a qualquer outro homem.

João Senna.
Salvador, 18/01/2016

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