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A gratidão


Ontem falei em uma palestra num grupo espírita. O tema foi a gratidão, um assunto muito pouco comentado. A verdade é que nunca havia  falado sobre este tema e também nunca ouvi alguém discorrendo sobre a gratidão. Procurei algo na internet e encontrei apenas a definição e algum comentário muito breve. Aparentemente, poucos são gratos à gratidão.

Na filosofia a gratidão é a quase esquecida e na ciência é a que nunca foi lembrada. Não existe uma única pesquisa científica sobre o tema, embora tenhamos grandes estudos sobre felicidade, resiliência, tristeza e outros aspectos psicológicos que demonstraram um papel positivo sobre o equilíbrio mental.

A gratidão é definida como o reconhecimento a um benefício. Se alguém nos presta uma ajuda, é natural que reconheçamos em tal atitude algo positivo, o sentimento que surge é a gratidão. Esta será maior quanto mais valorizemos o que nos foi oferecido e quando maior tiver sido a dificuldade para a pessoa que nos ajudou. Evidentemente que para um pobre, duzentos reais dado a um amigo é algo muito mais valioso que mil reais ofertado por uma pessoa muito rica. A dificuldade envolvida no auxílio representa um fator de aumento na gratidão. A parábola do óbolo da viúva  revela a gratidão de Jesus para com a mulher pobre que ofereceu ao templo o pouco dinheiro que possuía.

Os estudiosos do comportamento e a polícia técnica como o FBI estudam as expressões faciais de cada sentimento. A face revela o que sentimos, o que acreditamos ou não. Temos a expressão facial da tristeza, da raiva, da alegria, do medo, etc... Não temos a expressão facial da gratidão. Não é apresentado uma explicação científica para isto, mas acredito que a gratidão envolva um conjunto de virtudes necessárias para que possa surgir e, por isso, não se tem um rosto típico para a gratidão.

Uma consequências direta de a gratidão ser a união de várias virtudes é que muitos defeitos são contrários à gratidão e, assim, a mesma é uma rara virtude. Não é apenas uma questão de vontade querer ser grato, mas ter a real capacidade para expressar gratidão. Claro que isto não torna a ingratidão algo razoável ou aceitável, mas expressa a realidades de grande número de pessoas.

Muitas pessoas não tem amigos, tem pessoas que utilizam quando precisam. Se ligam para você no celular ou se enviam um e-mail, podemos estar certos: está em situação ruim, esta querendo algo. Mas é um fato que as pessoas que mais precisam do nosso amor são aquelas mais difíceis de amar. A evolução espiritual revela o que fizemos de nós mesmos e, seguramente, ter gratidão representa uma vitória.
Muitos defeitos contribuem para o surgimento da ingratidão ou, em outras palavras, inibem que sejamos gratos. É intuitivo que a gratidão deveria ser a mais fácil de todas as virtudes, afinal, ser grato não exige nada mais que reconhecer que alguém nos ajudou. Não exige dinheiro ou que sejamos hipócritas, pois, é esperado que abramos um sorriso quando alguém nos ajuda. É algo natural, muito esperado. Mas, se isto tudo é verdade, por que a gratidão não é tão comum como o esperado?

 A resposta é simples: temos defeitos. Não é que sejamos tão horríveis que não nos foi possível originar nada além que ingratidão. O problema são nossos defeitos, inimigos poderosos da gratidão e de nós mesmos. Relataremos abaixo alguns deles.

O egoísmo é a lepra do coração humano, o devorador de todas as inteligências. Esta é a definição do espírito Emmanuel no livro O Evangelho Segundo O Espiritismo. Todos somos egoístas, em menor ou maior grau. Isto não é bonito e nem natural. O egoísta quer tudo para si. Não considera ninguém além dele mesmo. Seus pensamentos são aspirados para o centro de um ego doentio onde o outro não passa de um meio para se alcançar o desejo, a alegria, a riqueza, o auxílio, o conforto. Ora, ser grato é sair de si mesmo, é dar o nosso reconhecimento que alguém é bom, tem valor, mas o egoísta não dá nada a ninguém. Não oferece nem a sua gratidão.


O invejoso é aquele ser que não liga se tem ou não algo, mas fica incomodado quando alguém tem algo que ele não tem. Nunca desejou um carro importado, mas fica triste se o vizinho compra um. Não consegue ver beleza onde ela se encontra em abundância, mas consegue ver defeito onde o mesmo não existe. Se o vizinho compra uma Ferrari, ele diz: lindo carro, mas pena que é vermelha, a pior cor do mundo. Aliás, acho que meu vizinho jogou dinheiro fora. Não queria uma Ferrari vermelha nem que me dessem. Se alguém se casa como uma linda mulher, então, ele diz: que linda mulher, tem uma bela profissão, é simpática, mas é bem mais alta que o marido. Você percebeu? Eu nunca casaria com uma mulher mais alta que eu. Nesse estado de coisas é, praticamente, impossível perceber a beleza de um gesto de amor ou amizade. Como poderá a gratidão escapar desta floresta de despeito e menosprezo gerado pela inveja?

O orgulho é aquele nosso conhecido que nos coloca em um lugar bem mais alto que aquele onde, de fato, estamos. Criamos um pedestal de onde contemplamos o mundo, os amigos e a nós mesmos. Deste local nos achamos auto suficientes, admiráveis, invencíveis. A versão um tanto perversa do super-homem do cinema. Acreditamos não precisar de nada, somos como uma planta que vive da água da chuva e dos raios do sol. Faz fotossíntese. Tudo o que de bom nos chega, de fato, não precisávamos ou conseguiríamos por conta própria. Ou se chegaram é apenas uma forma de reconhecimento à beleza de nossa existência. Um pagamento dado à nós pelo fato de embelezarmos o mundo com a nossa presença. Por que teríamos de agradecer?

O ciúme é um daqueles corrosivos do relacionamento. Nem sempre pode ser visto, mas está quase sempre ao nosso lado. É aquela mania boba de achar que o amor dado a nós diminuirá se também for dado a outro. O ciúme é o amigo infantil do egoísmo. Pode até ter seu charme quando em pequenas doses, mas sempre é um tanto bestinha. Apesar de ser pequeno, tem momentos de grandeza e pode deformar a visão da realidade. Se a esposa recebe promoção ou aumento salarial, se sobe profissionalmente de forma rápida, então, alguns maridos ( não muitos) passam a dizer: o que você fez para seu chefe para ser promovida? Um marido destes sentirá gratidão pelo chefe da esposa, pelo fato de o mesmo ter valorizado o profissionalismo, a competência? Claro que o marido, além de ciumento, pode ser invejoso. É uma dupla que requer grande dose de paciência e abnegação.

A vaidade pode ser entendida como uma importância excessiva à opinião que outros tem de nós. Mas você vai assim a esta festa? O que os outros irão dizer? A vaidade não está no ato em si, mas no motivo que nos leva a agir de tal forma.

Existem mendigos mais vaidosos que muitos ricos. O vaidoso gosta de preservar uma imagem embelezada de si mesmo. Reconhecer que necessitou de auxílio é ter de admitir que não está tão bem assim, que não é tão suficiente a si mesmo. Percebamos que a vaidade é semelhante ao orgulho. O nosso orgulho não gosta de reconhecer-se na forma de alguém que precisou de outro alguém. A nosso vaidade não gosta que saibam que precisamos da ajuda de alguém. Um não se mostra a si mesmo, o outro não se mostra aos outros.

Acredito não ter sido por acaso o fato de Jesus começar O Pai Nosso com palavras de gratidão: Pai nosso que estais nos céus, santificado seja o vosso nome. Continuar com um pedido (um gesto de humildade e confiança ): "venha a nós o vosso reino". Reconhecer o poder de Deus: seja feita a vossa vontade, assim na Terra como nos céus. Continuar com o reconhecimento do papel pessoal e amoroso de Deus: "o pão nosso de cada dia nos dai hoje" Admitir a bondade e a necessidade que temos  de Deus em nossas vidas: não nos deixeis cair em tentações, mas livrai-nos do mal ( o reconhecimento da nossa dependência e fraqueza).

João Senna. Médico, Escritor, Palestrante
Texto escrito em Salvador, no dia  20/04/2016

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