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APRENDENDO

     A minha primeira viagem de trem pra lá de Alagoinhas deve ter sido nas férias de 1938 para 1939 ou deste para 1940. Não foi depois, pois, nas férias seguintes até a formatura em 1943, ficava sempre em Salvador, atendendo a serviços de internato a que estava ligado por força de emprego. Numa daquelas duas férias citadas, as quais pude passar em Pojuca, é que fiz a tal viagem de trem na linha de Juazeiro. Durante aquelas férias, como de outras de datas anteriores, ajudava no balcão da venda ou da loja do velho, em Pojuca, o que não era muito, já que assistia nos momentos de maior movimento, tendo, fora destes, as regalias de filho do patrão a sair ou entrar quando me desse na telha, naturalmente apresentando justificativas, se necessárias. Daquela vez porém papai me chamou para ir a Bonfim (Vila Nova da Rainha) solucionar um problema. Havia um dinheiro de farinha a receber lá e o devedor demorava o pagamento alegando vários motivos. Lidando com vários compradores daquela zona, todos habitualmente seguros no trato do negócio e corretos na maneira de fazê-lo, somente esse manifestava-se fora dos padrões habituais. Instruiu-me o velho a respeito do assunto e resumiu as recomendações finais esclarecendo que o mais importante era receber o dinheiro. A farinha estava com preços em baixa, em virtude da chegada das chuvas no sertão após a seca que havia assolado. De modo que no período das secas o preço estava em ascensão, mas após as chuvas começou a aparecer a farinha local, começando pela farinha de vazante (ou de enchente?), isto é, farinha oriunda de mandioca plantada bem na beira do rio São Francisco no seu período vazio. Quem nasceu ou viveu por lá deve saber explicar melhor do que eu que sou filho do recôncavo. Mas, naquela época me foi explicado que, quando das secas, só restava plantar mandioca na beiradinha do rio razo. Isso era último e arriscado recurso a usar pois, com a enchente subitânea do rio, há de se arrancar tudo ligeiro, perdendo muita coisa e, das raízes arrancadas, muitas ainda sem uma quantidade favorável de massa para ser aproveitada. As enchentes no São Francisco nem sempre vêm depois que se inicia a chuva. Às vezes a sêca está aí campeando dura e perversa e já o rio, com chuvas nas cabeceiras para os lados de Minas e Sudoeste da Bahia, começa a crescer invadindo as margens ressequidas. Quem plantou sua mandioca, ou seja lá o que for, naqueles terrenos de vazante, há de arrancá-la ligeiro, mesmo que não esteja no tempo certo de fazê-la, sob pena de perde-la apodrecida ou levada pelas águas.

     Essa farinha de vazante não é boa, pois a mandioca, arrancada antes do tempo e arrancada “na carreira” isto é, toda de uma vez, há de ficar em grande parte depositada enquanto as mãos dos interessados aprontam as “casas de farinha” para processá-la. Enquanto isso, grande parte da mandioca estocada, azeda, isto é, fermenta. A farinha não sai boa, mas de qualquer modo, é farinha para entrar no mercado e baratear logo o preço. Pois foi isso que já estava acontecendo na região de Bonfim e Juazeiro após um período em que estavam a adquirir farinha no recôncavo e de Sergipe. A farinha proveniente de Sergipe era mais barata que a do recôncavo porém esta era, segundo os Bonfinenses e Juazeirenses, de melhor qualidade. Digo “segundo Bonfinenses e Juazeirenses”, pois não fica bem a um pojucano dizer que a farinha de sua zona é melhor que a de Sergipe. Fica parecendo elogio em boca própria.

     Convém transmitir ao leitor jovem um detalhe no transporte da farinha que, do recôncavo seguia para o sertão, via estrada de ferro, nem sempre em vagões fechados, mas às vezes em vagões “fechados em gradeado” – vagões de conduzir gado. É que a estrada de ferro nem sempre possuía vagões em quantidade para atender a demanda, especialmente nessas ocasiões em que toda a farinha do sertão havia de vir de fora do sertão e por ela. A farinha de Sergipe “descia” de Aracaju até Alagoinhas para aí, no entroncamento de São Francisco, passar do ramal de Aracaju para o de Juazeiro e “subir”. Vejam bem que caminho longo percorria essa farinha, “descendo” para o Sul e depois “subindo” para o norte. Muitas vezes os vagões cheios de farinha ficavam dias e dias em Alagoinhas, por falta de “ máquinas”, quero dizer locomotivas, para leva-los a seu destino.

     Era essa a situação do comércio de farinha, com vagões parados em Alagoinhas, mas já entrando na liça a farinha de vazante. Já começava a baixar o preço antes que os comerciantes de Juazeiro e Bonfim tivessem recebido o restante da farinha adquirida no recôncavo e em Sergipe. Vi os vagões parados no estacionamento de São Francisco (Alagoinhas). Continuei a minha viagem pensando em como solucionar a contento o problema que papai me puzera nas mãos. Levava um carta de pessoa amiga do juiz de Bonfim para este. Haveria de pedir a este que me apresentasse ao devedor, o que, segundo papai, poderia facilitar o recebimento. Era o caminho certo. Entretanto me deu na telha de me dirigir primeiramente ao devedor, para depois, se necessário, recorrer à carta do juiz. Ao contatar com o homem, verifiquei que ele era, ao mesmo tempo, comerciante em Bonfim e coletor estadual em Jaguarari, localidade próxima. Já aí fiquei de pé atrás, pois sei que essas não são profissões que se possam acumular. O homem procurou logo dizer que ia pôr a mercadoria à ordem por não ser uma farinha boa, conforme comprara. Diante dos sacos de farinha empilhados – eram uns oitenta sacos – tendo, no mesmo depósito, farinha de outras procedências eu retorqui:

     – Vamos comparar com qualquer outra que o senhor tenha aqui e ver se é igual, melhor ou pior.

     Logo ele disse:

     – Não há necessidade disso, porque essa outra farinha que está aí eu sei é boa...

     – Então o senhor diz o que é que há; eu só quero resolver a contento sem prejudicar ao senhor nem a mim.

     – Eu já medi – disse ele – e falta de um a três litros em cada saco!

     – Podemos medir de novo e verificar tudo direitinho e o senhor só pagará a quantidade exata que tiver.

     – Isso vai dar muito trabalho... o melhor é a gente entrar logo num acordo e abater cento e vinte litros.

     Ora, um saco de farinha continha, naquele tempo, oitenta litros, portanto 120 litros era a perda de mais um saco, ou seja um saco e meio em cinquenta. Fiz uma contraproposta e, afinal concordei em abater oitenta litros, ou seja um saco em cinquenta sacos. Era uma perda de dois por cento no negócio, mas achei razoável já eu cá mim pensava que o camarada podia não querer pagar o que iria custar muito mais caro a meu pai. Telegrafei a papai, na linguagem econômica dos telegramas: abatidos oitenta. Logo veio a resposta do velho: de acordo siga Juazeiro oferecer farinha a fulano, sicrano, beltrano etc. Citava nomes de vários negociantes de lá, entre eles Francisco Sinval da Luz, a respeito de quem já falei em livro anterior.

     Segui para Juazeiro, onde me hospedei na pensão Brasil de D. Anja. Não vendi nada. A situação era de queda nos preços e entrada de farinha de “baixo” e de “cima”. Houve um negociante – não sei se o seu nome era Severiano Bernardino – que me mostrou um catatau dessa altura de “conhecimentos” de partidas de farinha a chegar e “presas” em Alagoinhas por falta de locomotiva.

     Voltei e papai me recebeu alegre, mas se desalegrou quando lhe traduzi o meu telegrama. Ele tinha interpretado “abatidos oitenta” como se tivessem sido abatidos oitenta cruzeiros no total. Mas quando lhe disse que eram oitenta litros ele esfriou, pois oitenta litros eram bem mais de cem cruzeiros, o que ele não esperava. No final porém me disse: serviu porque recebeu. Também não aprovou eu não ter usado a carta para o juiz. Não soube lhe explicar bem, e até hoje não sei explicar porque não consigo pedir um favor a quem conheço. É do meu feitio não, posso modificar. Prefiro fazer o favor, se posso, do que pedir.

     Nessa viagem aprendi muito para o futuro. Gostei muito do que me disse Francisco Sinval da Luz, um batalhador vitorioso no comércio. Coisas que me pareciam difíceis, encareia-as como possíveis de conseguir, depois de ter ouvido o Sinval da Luz relatar com o espírito aberto e amigo, fatos da sua vida no comércio. Penso que ele se abriu comigo por dois motivos: um, o nome de meu pai e outro ser eu estudante de medicina. Logo que lhe disse ser acadêmico, ele se animou mais na conversa.

     – Eu sou farmacêutico, mas deixei tudo isso pra lá e me meti no comércio com vontade!

     Essas suas palavras não me serviram de logo, pois era minha intenção terminar o curso e exercer a medicina, como o fiz. Mas quando depois resolvi deixa-la pelo comércio de farmácia, as palavras de Francisco Sinval da Luz se encaixaram perfeitamente nos meus desejos, certamente serviram de incentivo.

Texto extraído do Livro IDÉIAS BAMBANGAS de autoria de José Lemos de Sant' Ana Médico, empresário, escritor

Digitado por Luzanira Fernandes  

    

    

 

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