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Cavando Riqueza

Ficara viúvo há pouco tempo e na sua idade sentia-se cansado para estar a reclamar dos seus dois filhos o cumprimento do dever. Pensava: certamente está escrito no livro do destino que os meus filhos conhecerão a miséria e a fome – não querem trabalhar; só cuidam de distrações, lazeres, farras e esquecem que, após a minha morte ou, antes, logo que a velhice me impeça trabalhar, as rendas fenecerão. Só Alah – com ele a minha confiança – poderá inspirar-lhes a se modificarem!

     Não eram poucas as vezes em em que Seniul Kassen se dirigia aos filhos para que viessem ajudá-lo no seu bazar. Com as noites transformadas em dia, os irmãos  Liassan e Kacil só encontravam o velho pai à hora do jantar, quando ele chegava do trabalho e eles saíam para os encontros noturnos com os e amiguinhas. Comida não lhes faltava – naquela casa sempre existiu a fartura, embora sem esbanjamento – e o velho não lhes negava dinheiro para os gastos pessoais, mas a preocupação única de Seniul Kassen era o futuro desse rapazes: que haveria de ser depois? Como viveriam sem produzir, sem trabalhar?

     Certa noite, à hora do jantar, o velho pai, denotando nas feições séria preocupação, dirigiu-se aos dois com as seguintes palavras:

     - Hoje passei o dia preocupado com um sonho que tive à noite passada e que impressionou bastante.

     - Qual foi o sonho, velho? – perguntou um deles.

     - Sonhei esta noite com sua mãe. Momentos há que penso não ter sido sonho, mas que foi ela mesmo, em espírito, que me apareceu, pois eu estava de olhos abertos no final, e via-a, de pé junto à cama, sorrindo e repetindo o que me dissera.

     - Que foi que ela disse? – perguntaram os dois a um só tempo, interessados já no sonho.

     Ela me disse que sabia onde estava escondida uma caixa cheia de ouro e pedras preciosas...

     - Uma caixa cheia de ouro? – interrogou um deles demostrando admiração, enquanto o outro, de olhos arregalados, olhava atento para o velho.

     - Sim, cheia de ouro e pedras preciosas. Essa caixa, ela me afirmou, tinha sido escondida por sua avó, quando uns bárbaros invadiram a cidade onde ela residia, saqueando tudo. Mas tendo sua avó sido morta pelos bárbaros invasores, ninguém sabia da sua existência. E minha saudosa esposa, mãe de vocês – Alah a tenha em sua glória – me avisava que sabia onde estava a caixa mas só poderia me comunicar quando eu tivesse organizado três bazares.

     Parou de falar, por instantes, pensativo, mas a seguir disse:

     - Deve ter sido um mero sonho. Não vamos nos preocupar com isso.

 

 

 

     Acabada a janta, logo saíram os rapazes e o velho ficou só. Mais tarde recolheu-se para dormir, mas ao que parece não dormiu bem essa noite, pois lá pelas tantas da madrugada estava andando pelo meio da casa como um sonâmbulo, tendo até derrubado alguns móveis, do que resultou algum barulho que fez acordar o casal de empregados domésticos que ocupava uma ala da residência. Esse casal logo acorreu e o encontrou de olhos arregalados no centro da sala de visita olhando um ponto fixo na parede. Sacudido levemente e chamado pelo nome, voltou a si, mas não deu esclarecimentos aos empregados e voltou ao seu quarto. Esse fato foi comunicado pelo dito casal aos rapazes logo que eles acordaram depois do meio-dia.

     À noite, ao jantar, já os filhos, cientes do acontecido, sentaram-se à mesa demostrando preocupação, mas nenhum deles sentiu-se encorajado a tocar no assunto. Não foi necessário, pois o próprio pai lhes contou:

     - Essa noite sua mãe apareceu novamente. Dessa vez, tenho certeza, não foi sonho, pois levantei-me  e a acompanhei até a sala, onde ela, sorrindo, me repetiu as mesmas palavras da noite anterior: Como estava escuro, na passagem derrubei alguns objetos, o que acordou os empregados. Logo que eles chegaram na sala, com a lâmpada de azeite acesa, a visão desapareceu. Não lhes disse nada, pois agora me parece que existe guardada em alugar essa caixa cheia de riquezas e não convém que  outros saibam além de nós.

     Acabado o jantar, os rapazes resolveram não sair de logo, para conversarem com mais cuidado com seu pai. Aguçava–lhes a ambição o tesouro escondido.

     - Eu gostaria de saber onde está e de pegar nesse tesouro, o que seria ótimo para nós todos, mas a condição imposta é que se torna difícil de ser cumprida, pois eu, nessa idade, nem mais um bazar poderia abrir e tomar conta. Mas abrir mais dois é muito para mim!

     - E se nós lhe ajudássemos – perguntou um dos filhos interessado – em quanto tempo se poderia chegar a três bazares?

     - Em três ou quatro anos no máximo teríamos os bazares. Mas eu creio que, dependendo do esforço de todos, talvez com um a dois anos.

     - Então, mãos à disse o outro – vamos começar logo amanhã cedo.

     Nessa noite e nas seguintes, não mais saíram os rapazes à noite. Cedo estavam na cama, para no dia seguinte, cedo, irem para o batente.

     De acordo com o velho, traçaram logo um plano e medidas de economia. Resolveram trabalhar ambos dentro do balcão com o pai para aprender todos os meandros e sutilezas do negócio., ao tempo em que dispensaram um número correspondente de  empregados como medida de economia. Ao fim de alguns meses já estavam perfeitamente ambientados e trabalhando normalmente e, com dez meses, o velho lhes comunicava que as economias conseguidas já davam para abrir uma outra loja. Assim foi feito, entregando a sua direção ao mais velho dos

 

irmãos. Inaugurada esta, no dia seguinte, cedo, o velho comunicava aos filhos ter tido visão da defunta esposa que alegre comunicava que estava indo tudo certo e confirmando que, logo fosse inaugurada a terceira loja, ela indicaria o local do tesouro, conforme prometera. E acrescentava o pai:

     Dessa vez a sua presença não me causou assombro mas uma grande alegria.

     Prosseguiram os rapazes trabalhando com afinco, até que, dois anos e meio após o primeiro sonho, completava Seniul Kassen a terceira loja, entregue ao segundo filho. Ficou assim o pai com uma loja e cada filho com uma.

     Inaugurada a última loja ficaram os rapazes aguardando o aparecimento do espírito da santa mãe a seu pai a lhe comunicar o local onde estava o tesouro. Passaram-se os dias e o velho não tocando o assunto. Todos continuavam trabalhando normalmente, cada qual no seu bazar.

     Um dia, um dos filhos perguntou:

     - Pai, mãe não apareceu mais não?

     - Até agora não, mas penso que ela deverá manifestar qualquer dia. Só Alah pode determinar ou permitir.

     Foram-se passando mais dias e meses e, aproveitando uma noite em que todos juntos comemoravam os negócios realizados, o pai falou aos filhos.

     - Esta noite ela apareceu, muito alegre e satisfeita, e me disse uma coisa que me emocionou profundamente. Disse-me que o valor do ouro e das joias ela já distribuiu todo em nossas mãos e que, graças a vocês, o valor do que possuímos juntos nesses bazares é maior do que o valor do conteúdo do baú, cujo tamanho, conforme me disse, era muito pequeno, não maior do que uma caixa de pó de arroz.

Fez-se silencio, logo rompido por um ,dos filhos que disse:

     - Afinal, ela, de lá onde está, nos ensinou a trabalhar e produzir.

     - E a deixarmos a vida ociosa que levámos, que só poderia nos conduzir à fome, à miséria ou ao crime – disse o outro, e acrescentou – mas eu penso que ela não fez isso sozinha. Alah me perdoe, mas parece-me que ela tramou a coisa em conluio com o senhor, pai.

     Uma risada geral cobriu as suas últimas palavras.

     Alahur Akbar! Deve haver muitos métodos de desencavar um baú de ouro, mas o melhor ainda é com esforço e trabalho.

Texto extraído do livro “Histórias do Viajante Narum”

 Autoria de José Lemos de Sant’Ana – Médico, escritor

 Transcrito por Luzanira Machado Fernandes


 

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