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Conceitos

     Conforme já disse em outra oportunidade, cliniquei pouco tempo, pois em 1951 deixava a clínica e me dedicava totalmente à farmácia. Naquela profissão de médico, como hoje na de comerciante, colhi e tenho colhido muitos ensinamentos: isso também já declarei. Gostaria, porém, de tratar agora a respeito de conceitos, reais ou fictícios, que são adquiridos em determinadas circunstâncias. Às vezes adquirem-se conceitos bons e, outras vezes, maus, dependendo da atuação acertada ou desacertada e também da sorte. Os meus desacertos como médico devem ter sido numerosos, tendo em vista a minha inexperiência de principiante e os parcos recursos da época e da região. Os atestados de óbito que assinei não trouxeram bons conceitos certamente, já que é fácil, para quem está de fora e não entende do riscado, lançar sobre o médico parte da culpa da morte do paciente. Além disso, o desespero de quem perde o seu ente querido algumas vezes procura um bode expiatório e não é fácil acha-lo no médico. Os pacientes que expiraram em minhas mãos, tenho certeza, tiveram, até o último instante, toda a minha dedicação e todo meu esforço no intuito de salvá-los. E devo acrescentar que cada um desses, ao morrer, levou um pedacinho da minha vida. O sentimento de pesar que ficou em mim, de cada vez corroeu-me por dentro, sofrendo calado. Mais sofri quanto mais jovem o paciente perdido.

     Houve, porém, os casos em que o meu acerto, ou minha sorte, trouxe bom conceito. Certa vez fui chamado para atender uma criancinha com menos de um mês de nascida Lá chegando, diagnostiquei – sorte! – de imediato o tétano umbilical, chamado popularmente de “mal-de-sete-dias”. Quinze minutos depois já começava a aplicar o soro antitetânico. A criança salvou-se – é hoje homem perto dos 40 anos – e fiquei com um elevado conceito como médico para crianças, já que, segundo se dizia naquela época no sertão, mal-de-sete não tinha cura. Vê-se bem que houve, no caso, um exagero no conceito, pois qualquer médico, diante do caso, teria feito o mesmo e com os mesmos resultados. Mas, se o fato que acabo de relatar já demonstra esse exagero do povo no conceituar-me, vou relatar um outro, ainda mais gritante. Certa vez fui chamado com urgência para ver uma criança na Praça do Rosário (Itaberaba). Lá chegando, encontrei-a desacordada e com um febrão danado. Segundo os pais, a febre surgira de repente com frios, semelhantemente ao que se dera algumas semanas antes com outro filho e que falecera em 48 horas em mãos de outro médico. Ainda estavam lá os remédios aplicados. Vi-os: eram os remédios que nós médicos, naqueles tempos, prescrevíamos para as febres desconhecidas, enquanto observávamos melhor para chegar ao diagnóstico. Enquanto não vinha o diagnóstico correto, havia um diagnóstico para uso externo, isto é, para confortar a família e o doente: pirexia criptogenética, ou  seja, traduzindo em miúdos, febre de origem desconhecida. Por acaso tinha tratado uns casos de paludismos naqueles dias, um dos quais se apresentou com características quase fulminantes, como as características que via naquela criança. Chamava-se, por, aqueles tempos, de terçã maligna, provocada pelo plasmódium falciparum em infecção repetida. Em vez de a febre vir naquele período de cada três dias, ela se manifesta com uma sucessão de vários ataques com intervalos menores e, às vezes, como parecia ser aquele caso, uma superinfecção, ou melhor, uma coincidência, no mesmo momento, da manifestação de infecções diversas. Como se, em vez de um grupo, houvesse vários grupos de plasmódios a atacarem, cada qual dentro da sua cronometria. Assim, haveria ataques a se manifestarem, não a cada três dias, mas cotidianamente. Às vezes até duas vezes ao dia ou, por coincidência, um forte ataque de vários grupos a um só tempo. Não havendo assim assistência a tempo, a morte seria a consequência fatal.

     Examinei rapidamente o funcionamento do coração e as condições pulmonares: afinal poderia ser uma pneumonia. Não era. Não havia dúvidas, apliquei logo quinina – não havia o Aralen e outros produtos mais eficientes – em alta dose por via intramuscular e mais o que qualquer médico deveria fazer a seguir. A criança salvou-se e hoje vive em Salvador e tem mais de 40 anos de idade. Espalhou-se então o excelente conceito do ótimo médico de crianças... Ora, se eu tivesse atendido o irmão desta criança que falecera antes, certamente não teria evitado a sua morte. Para a segunda criança os pais chamariam o outro médico e ele certamente faria o que eu fiz e a salvaria. O primeiro médico, ao não poder salvar a primeira, deixou o diagnóstico pronto para o segundo. Este, diante do quadro, sabendo como se manifesta a doença, sem os sintomas definidos dela ou de qualquer outra moléstia, mas com certeza, dada pela criança anterior, da morte em pouco tempo, não tinha outro caminho senão aplicar a quinina. Se o dono da casa, em vez de me chamar, tivesse procurado o médico que assistiu a outra criança, ele nem teria necessitado de exames: faria o certo e a salvaria. Acertaria o diagnóstico mais rapidamente do que eu, pois é possível que, ao ser chamado, lhe viesse o diagnóstico na cabeça e levaria na sua bolsa as mesmas ampolas de quinina que precisei ir pegar na farmácia.

     Como se vê, gozei de uma fama sem merecê-la tanto e, o que é pior, em detrimento de outro médico que poderia ter acertado, talvez melhor. Confesso que não gostei disso. Disse-o ao pai da criança e lhe expliquei a verdade. Mas é difícil para quem não tem um certo preparo de estudo modificar os seus pensamentos em tais casos, pois esses seus pensamentos ficam sempre arraigados como fé, como superstição. É mais o sentimento que predomina: salvar o seu filho e ter perdido outro filho.

     Depois, no comércio, vi quanta fama boa e quanta ruim se tenta lançar sobre esta ou aquela firma e a sucessão dos fatos posteriores vem esclarecer melhor. Aprendi lá na clínica a ser cauteloso no comércio diante dos diz-que-diz-que, e a trabalhar em frente aguardando os verdadeiros resultados. 

Texto extraído do Livro BAMBANGA (Memórias) Vol. III de autoria de José Lemos de Sant' Ana, Médico, Empresário, Escritor

Digitado por Luzanira Fernandes

                                                  

 

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