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Halley

     Fala-se muito na passagem do cometa de HALLEY. Veio-me a lembrança o prof. Antônio Figueiredo que ensinava, entre ouras matérias, Geografia, no Ginásio da Bahia do meu tempo. Penso que foi ao cursar a 5ª série (equivalente ao 1º de Colégio) que assisti uma aula sua sobre cometas. A aula era sobre corpos celestes, planetas, cometas, estrelas, assunto que era tratado  num livrinho intitulado Cosmografia. O assunto, por fugir ao normal das aulas de Geografia, me prendeu na ocasião. Aliás eu pessoalmente gostava das aulas de Geografia do professor Figueiredo por dois motivos: um, ele era claro e objetivo, e outro, eu gostava da matéria. Na aula ele se estendeu mais, ou melhor, empolgou-se mais quando tratou dos cometas e isso deve ter influído muito na melhor atenção dos alunos, pois o entusiasmo do mestre se transmite, impressiona e prende o aluno. Hoje, depois das informações de meu sogro. Dr. José Dias Laranjeira, de que o prof. Figueiredo foi seu colega da Escola Politécnica, associo o fato de que deveriam ter idade próximas e portanto, como meu sogro, deveria estar em torno dos seus 17 anos quando passou em 1910 o cometa de Halley. Na infância, fatos inusitados deixam impressões mais fortes do que na idade adulta. Já nesta prevalece o espírito de observação. Aos 17 anos, as impressões ainda se impõem muito fortes, mas já o observador está crescendo também dentro do rapaz que se nivela aos adultos. Ainda mais quando é este estudante, e estudante estudioso como era Antônio Figueiredo. Daí o seu entusiasmo ao falar sobre os cometas e que ainda se manifestava 25 anos depois ao ensinar. Lembro que ele fez um panegírico em torno do nome de Halley, mostrando a sua dedicação ao estudo dos astros mediante cálculos matemáticos. Dizia ele que havia muito astrônomo descobridor de estrelas e cometas, mas poucos a estudaram devidamente o que descobriam. Assim como no comércio nós vemos muitos descobridores de “pontos” e negócios, mas poucos a executarem o idealizado ou a assistirem o executado. Não assim Halley, que, observando em 1682 um belo cometa, visto por ele e outros astrônomos, enquanto alguns disputavam a primazia do achado, ele tratou de estudar-lhe os movimentos e traçar-lhe a órbita. E o estudou diariamente, conseguindo, ao fim, não só traçar-lhe a órbita como predizer a sua volta dentro de 76 anos. Mas nem por isso Halley se arvorou a comunicar imediatamente às academias de ciência, aos outros observatórios e aos estudiosos do assunto. Antes voltou a ler sobre os cometas avistados 75 a76 anos antes e lá estava um descrito por Kepler, em 1607 e cujas características de aspecto e de órbita, coincidiam com o que estudara. Recuando mais no tempo, encontrou a descrição de cometa semelhante, por Apianus, em 153. Só aí resolveu comunicar aos interessados, declarando que a posteridade confirmaria com a volta do mesmo cometa. De fato, em 1758, ficaram todos os observatórios alerta. E veio no momento certo atingindo o seu periélio em Março de 1759. Daí em diante, com o nome inglês Halley, tem sido pontual nas suas aparições.

     No comércio se há de ser como um cometa, sempre sob a influência de um sol – os seus negócios – atraí-lo e depois impulsioná-lo de volta a girar em torno. Há de se servir a muitos que olham e fiscalizam – os seus clientes – e que darão a medida dos ganhos e progressos da firma. Há de se agradar, às vezes até impressionar pela sua preocupação com os compromissos procurando marcar o ponto quando dele se espera. Só que também os cometas, se de um lado servem para lembrar boas coisas, podem também servir com exemplos maus. Não se deve fugir dos negócios, como os cometa do sol, nos momentos de crise: manda dizer que não está, desaparecer da sua oficina ou do seu escritório. Não se deve ser temporário no trabalho, mas efetivo e dedicado dia após dia. Não se deve ostentar tão brilhante, cara e magnificente “cauda” de despesas luxuosas, quando se tá pequeno diante de tantos outros “corpos celestes” bem maiores. Não se deve gastar “tanto apito e vapor” e ir diminuindo de tamanho depois por força desses mesmas perdas em ostentações e luxos. Negócio não é dedicação e trabalho, é também humildade e economia. Nada acima do que se pode e se deve. Nos negócios há de se agradar sem esbanjar, há de se produzir sem desperdiçar.

     Tenho as lembranças de mais duas pessoas que assistiram a passagem do “Halley” em 1910. Minha mãe, então nos seus 15anos, contava a beleza impressionante do cometa e o receio, dela e de todo o povo de Pojuca, de algum castigo celestial. Um  detalhe referido por ela, era de que, nunca das noites em que o viu, havia em todo o céu, como umas ondas luminosas se movendo lentamente. Já minha sogra. Corina Serra Laranjeira, contou que assistiu a passagem do cometa em Castro Alves, com a idade de 10 anos. Lembra-se que, quando ele ficou com a cauda bem extensa, pareia apontar para cima da Igreja, o que trouxe mais medo ao povo, que passou a encher o templo rezando e implorando misericórdia a Deus. Para acalmar o povo, foi necessária a intervenção do Dr. Rafael Jambeiro, médico de grande prestígio local que assomou de sacada do sobrado para falar á turba aprovada na rua. Conseguiu se fazer entender e tranquilizou um pouco. Não tranquilizou porém de tudo, que muita gente continuou a acorrer para o rezatório na Igreja.

     Muita gente se conduz diante dos negócios, apavorados, como muitos que assistiram a passagem do “Halley” em 1910. Outros admiram o comércio como muitos aos cometas, mas sempre conservando um certo temor. Já outros, preferem observá-los, estuda-los e,, se temiam, perdem o temor e familiarizam-se com eles. Alguns – e esses são os mais privilegiados – fazem com os seus negócios, como Halley fez com os cometas: dedicam-se a fundo, estudando, trabalhando, calculando, desvendando mistérios e, afinal tornando-se donos de um vasto cabedal de experiência... e de um belo e invejável negócio.

Texto escrito pelo médico, empresário e escritor José Lemos de Sant´Ana 

Digitado por Luzanira Machado

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