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Homem de palavra

Mesmo trabalhando nas emergências, eu procurava saber a razão daquela lesão, daquele mal-estar, daquele problema. Não ficando satisfeito com a narrativa, eu fazia perguntas que pudessem me esclarecer o significado daquele problema. Não é comum os médicos se interessarem tanto pela estória do paciente. Daí, depois de muitos anos de profissão, eles (médicos) nada têm a contar de interessante. Eu, pelo contrário fico feliz em saber o enredo; o início e fim de uma história que pode não ser tão interessante quanto o seu desenrolar. Na clínica, há mais tempo para inquirições. Na pequena cirurgia, enquanto é feita a sutura, pude saber de muitos fatos interessantes.

     Os domingos nas emergências são sempre borbulhantes. As lajes têm uma presença marcante junto à população mais pobre: Bater laje é uma festa regada a bebidas e feijoadas. O trabalho de bater laje é feito, sempre, em regime de adjutório. Muitas vezes, para economizar, as escoras não são bem feitas ou o número não é suficiente, levando a acidentes, entre os quais, o desabamento.

     Na laje se recepciona os parentes, na laje se leva a roupa e nela se estende. Na laje se empinam arraias etc. As lajes são doadas aos filhos para fazerem construções. A laje é vendida para fazer um dinheirinho. A laje é um lugar sempre presente.

     Nos domingos, há os jogos com colegas e amigos, há os encontros familiares, há a lavagem da roupa suja (no sentido real e figurado), há os cunhados reclamando, há irmãos brigando, há os vizinhos em algazarra. Essas reuniões, não raro, terminam em briga. Há excesso de bebidas que leva a acidentes os mais diversos, desde afogamentos, na praia vizinha, a acidentes de trânsito e até agressões físicas, entre eles.

     O Hospital João Batista Caribé era um hospital de emergência do Subúrbio Ferroviário, região onde se concentra um grande percentual da população de baixa renda, que acompanha baixo nível social e cultural eram atendidos os casos leves e graves, que tem em seu bojo uma extensa faixa de ignorância lubrificada pelo alto consumo de bebidas alcoólicas. É uma mistura explosiva. A agressividade campeava. Todo tipo de acidente era comum em todos os plantões no Hospital João Batista Caribé.

     Nunca estive numa guerra, mas não creio seja muito diferente de um plantão de domingo naquele hospital.

    Num daqueles domingos, à tardinha, chegou um senhor, jovem de uns trinta e oito anos, com a camisa rasgada, sem calçados, bêbado, com escoriações no corpo e um corte no couro cabeludo que fora trazido pela polícia.

     Enquanto eu  fazia a sutura no seu couro cabeludo, fui tomando a estória que passo a relatar.

     Joseval tinha uma irmã que morava em Brotas a quem devia sessenta reais. Ele morando em Nazaré das Farinhas, conseguiu a importância devida e, cavalheirescamente, veio pagar à sua irmã. A honestidade e a grandeza do gesto estavam patentes.

     Saiu de Nazaré bem cedo e, às sete horas da manhã, já tinha pegado o ferry em Bom Despacho.

     Antes das oito, estava saltando em São Joaquim.

     Para marcar a sua chegada, deu uma passadinha na feira, para molhar os beiços.

     Inicialmente, ele entrou numa tosca barraca de madeira, onde estavam expostas várias beberagens correspondentes a folhas e raízes imersas na cachaça, para dar gosto e transmitir as suas virtudes medicamentosas: maria-preta é bom para os “figo”, assim como caçatinga e dandá; milome é bom para a digestão; pau-d’-arco é bom para câncer; jurubeba e conhaque de Alcatrão São João da Barra são bons para fraqueza dos homens; coco é bom para colesterol; erva-doce é bom para o intestino, e assim vai.

     Como não havia tomado café, o nosso amigo pediu um milome, para começar o dia e dar ânimo para chegar até sua irmã.

     Na barraca, já se encontrava os clientes habituais, também tomando suas folhas. Alguns já comiam um mocofato (mocotó cozido com fato de boi).

     Um negão, que já estava tomando milome, esboçou um sorriso, enquanto o nosso amigo jogava o restinho do copo no chão, que os entendidos dizem ser para o santo (nem sei que tipo de santo é), enquanto outros dizem que é para não pegar doença nos copos mal lavados – os micróbios ficam no fundo. Assim ou assado, após a careta natural da deglutição, pelo amargor da bebida, comentou com o estranho que lhe sorria:

     - Você também aprecia milome, né?

     - Sim. Milome é um remedião. Além de tudo, é bom pros vermes. Dizem até que é bom pra espinhela caída. Eu gosto muito!

     - Eu já tomei uma dose. Tá é bom, mesmo! Você aceita mais um trago, para me fazer companhia? – perguntou o seu recente “amigo”.

     - Sim.

     Nesses locais, não se pode fazer desfeita a quem oferece algo.

     - Marieta (era a dona do barraco, velha conhecida do recente amigo), por favor, dois milomes! – ordenou.

     As conversas começaram com a apresentação dos nomes, com as inevitáveis perguntas: de onde vinham, onde moravam. Mais um milome, mais outro milome, assim a conversa andava. O litro de milome chegou ao fim . É bem verdade que não estava completamente cheio. Passaram a tomar jurubeba, vez que era bom para levantar as forças. Mais uma dose para dois. Inicialmente, seu companheiro pagava uma rodada, e ele outra. Lá para as tantas, o companheiro não pagava mais. É certo que não se nega um trago aos amigos, ainda mais estando bebendo!

     - Deixa que eu pago – falava sempre Joseval.

     Joseval já estava rico, gaguejava e se desequilibrava, ao andar. Por volta das sete horas da noite, o amigo o convidou para um sarapatel em casa de um compadre, no Alto da Santa Cruz. Ele respondeu que necessitava ver sua irmã e entregar um dinheiro que estava devendo.

     - Rapaz, depois você vai. Vamos só dar uma passadinha. Não vamos demorar muito; depois você vai para a casa de sua irmã – atalhou seu recente “amigo”.

     - Se for para não demorar muito, eu vou com você – concordou Joseval.

     Quando lá chegaram, já passava das oito horas da noite. A casa era pequena e estava cheia. A maioria os convidados estava na rua. Dose de batida de limão foram distribuídas. Sem saber como, nem por que, o atacaram, o esmurraram e o jogaram ao chão. No meio dessa confusão, foi resgatado por uma viatura da Polícia, que por ali passava, e que o trouxe até o Hospital João Batista Caribé.

     Sujo, molhado cabeludo, descalço, camisa rasgada, sem documento e sem dinheiro, ele foi apresentado a mim, numa maca do ambulatório cirúrgico do Caribé.

     Depois da limpeza e da sutura, encaminhei-o ao Serviço Social, para que ligasse para irmã, credora dos cento e sessenta reais, para vir dar uma mão ao seu irmão, aquele que veio lhe pagar.

     Ele não devolveu o dinheiro à sua irmã porque não deu certo. Mas veio. Embora não tenha dado certo. Não pôde ser, paciência!

     A assistente social conseguiu contato com a irmã. Esta, que iria receber o dinheiro, levou-o a casa e ainda teve que gastar para manda-lo de volta para Nazaré das Farinhas.

Texto extraído do livro Estórias de Todo Dia 

Autor  Fernando Machado Couto. Médico, escritor

Contato para aquisição do livro: Thyana Tel.: 071.9 9120.9337

(Postagem ou motoboy)

Texto digitado por Luzanira Fernandes

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