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Intuição feminina

Tendo verificado Jain Romir que uma firma concorrente se expandia em Kripto-Poulos, já com cerca de dez lojas espalhadas, nasceu-lhe uma idéia magnífica. Consultando seus pai, este, após meditar bem, disse-lhe: - Seu plano vem solucionar todos os nossos problemas, embora seja preciso agir com muita cautela. É o único plano que, se aplicado bem, pode não só nos salvar como nos tornar senhores absolutos do mercado de quinquilharias de Kripto-Poulos.

     Os Romir, Jelah o pai e Jain o filho, estavam na direção da grande firma de quinquilharias “Sociedade Sheik Saluh Romir, Quinquilharias em Grosso e a Varejo”, herdada por morte de seu pai e avô respectivamente. Enquanto, porém, Jelah não dava grande importância ao negócio, embora homem muito inteligente e hábil, dado que estava habituado, desde jovem, a estar de fora do mesmo, já seu filho Jain, com um curso de comércio em Alexandria, dava tratos à bola, pois sentia que, por morte de seu avô, as coisas não iam nada bem e havia necessidade de fazer alguma coisa.

     O plano consistiu na criação de uma sociedade por ação, para a qual seria convidado, em pé de igualdade, um outro concorrente, cuja situação sabiam estar muito melhor do que a sua, mas que, espicaçada pelo desejo de, juntos, ultrapassarem o invejado concorrente das doze lojas e açambarcarem o comércio de quinquilharias da cidade, certamente aceitaria. Realmente, a proposta foi aceita de primeira.

     Partiram então, agora já irmanados, os Romir e os Moriuh – estes os novos associados – para convencer as pequenas casas a se lhe associarem. Como as casas menores andavam temerosas da força ascensional da “Quinquilharia das doze lojas”, que lhes retirara alguma freguesia, a oferta de associação dentro de uma grande firma não era para ser desprezada. Consultadas cerca de quatorze lojinhas, todas concordaram imediatamente e solicitaram a documentação e mais esclarecimentos necessários à consecução do resultado por todos desejado. Conforme por escrito e verbalmente foi explicado, cada pequeno comerciante entraria como acionista, computando-se um valor, de comum acordo entre ele e a direção da sociedade, para suas instalações, estoques, etc., subtraindo-se destes valores o seu passivo. A diferença resultante seria o valor de suas ações. Ao mesmo tempo, ele nomeado gerente da filial em que se constituiria agora sua antiga loja, com um salário mais alto do que antes teria sido a sua retirada. Nada melhor, para qualquer deles. Todos de acordo, resolveu a direção da nova e importante firma que todas as adesões, em número de quatorze, seriam assinadas em sessão solene no grande salão da antiga “quinquilharia Flor das Flores”, hoje sede da matriz da firma recém estruturada. Em dia e hora aprazados, estavam, todos, diretores e novos acionistas, sentados em torno da grande mesa oval, tendo em volta, de pé ou sentados, parentes e amigos. Após determinadas cerimônias, de praxe em tais ocasiões, e depois das palavras eloquentes de Jain Romir e de terem assinado os diretores, foi passado o contrato para o mais próximo dos novos acionistas. Este, rapaz humilde e até de aspecto um tanto raquítico, disse que, antes de assinar, gostaria de dizer algumas palavras. Iniciou exaltando as vantagens da união que faz a força e prosseguiu enumerando:

     – Primeiro – agora teremos em Kripto-Poulos uma grande firma de quinquilharias que poderá impor aso fornecedores menores preços e portanto poderá vender também mais barato ao povo.

     – Segundo – enfrentaremos e derrotaremos a “Quinquilharia das doze lojas” que queria tentar o monopólio.

     – Terceiro – receberemos, cada acionista, de acordo com os lucros, dividendos proporcionais às ações que possuímos e esses dividendos serão sempre nossos, pois as ações que possuímos nos garantem.

     – Quarto – recebemos, cada acionista, semelhantemente, uma retirada mensal como funcionários, e esse nosso emprego é garantido porque... porque...

     Nesse ponto o orador gaguejou e não sabia explicar o que é que lhe garantiria o emprego. Foi quando a esposa de um dos nossos acionistas gritou de trás:

     – Não assina não, Bem, que eles podem demiti-lo até amanhã. Você agora é empregado deles!

     A reunião virou em barafunda. Ninguém mais se entendia. Não foram assinados os contratos.

     Há muito que não passo em Kripto-Poulos, mas tenho certeza que Alah está por lá pondo as coisas nos lugares devidos, mesmo ensinando aos ambiciosos homens através voz intuitiva das mulheres.

     Alahur Akbar!


Texto extraído do livro Histórias do Viajante Narum (4ª edição ampliada de Mala de Viajante) de autoria de José Lemos de Sant’ Ana

Médico, Empresário, Escritor

Digitado por Luzanira Fernandes

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