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Ma ka ça

Já disse em outra oportunidade que em qualquer profissão, da mais humilde à mais ostentosa, pode-se ficar realizado. Penso ter explicado também que não contam números absolutos mas relativos, comparativos, na verificação do progresso. Essa comparação pode ser com a média dos demais profissionais do mesmo ramo, mas isso não é importante. O mais importante é que a comparação se faça entre o presente e o passado do próprio profissional. Se ele realmente preza a sua eficiência, tem amor ao trabalho que executa, verificará o quanto progrediu em termos de experiência, de conhecimento da função que exerce, o quanto cresceu em admiração e respeito dentro da comunidade, do grupo ou da empresa a que serve. Ele tem algo a mais a dar do que antes, e isso orgulha a qualquer um. Vejam bem que eu não falei em aumento dos ganhos monetários, que isso também incentiva. Mas do mesmo modo que sem estes perde-se de algum modo o entusiasmo, sem aqueles – a consideração e respeito à sua eficiência – não agrada ganhar o dinheiro. Só os aventureiros e os destituídos de um ideal pensam primeiramente neste e não naqueles. De modo que, penso, deve haver uma primazia dos ideais sobre a ambição do ganho.

     Quando cheguei a Itaberaba para iniciar a clínica, certa vez – deve ter sido logo nos primeiros meses de 1944 -, passando pela Rua do Orobó, vi uma casa, destas casas bem modestas de porta e janela, de fachada bem pintadinha, e, bem acima da porta e da janela, três sílabas separadas como se fossem três palavras, distintas: MA KA ÇA.  Embora o letreiro me tivesse tocado a curiosidade, não dei grande importância, pois não era a primeira vez que, pelo interior, encontrava letreiros cuja tradução havia de se perguntar ao dono geralmente sem as “letras” necessárias da escola. Por aquela época eu lera um livro escrito por um cirurgião europeu a respeito da cirurgia que fora ver na América do Norte. Segundo ele, a especialização cirúrgica entre os norte-americanos era de tal ordem que fazia com que alguns especialistas chegassem a ser incompetentes para executar algumas fases de uma operação. Desta ele sabia a parte que lhe cabia executar e sabia-a muito bem. Numa operação de apêndice por exemplo – e naqueles tempos era moda tal operação – havia um cirurgião que só fazia abrir a parede do abdôme, outro para cortar o apêndice e suturá-lo e outro para fechar. De modo que, o que na Europa era feito por um só médico, nos Estados Unidos exigia três. Chega a comparar, no seu livro, a cirurgia norte-americana ao abatedouro de gado de Nova York, onde ele viu funcionários especializados em sangrar, outros em esfolar, outros em arrancar o chifre da direita e outro da esquerda etc. Ele viu como o gado, levado para esteira rolante em fila indiana, cada boi, ao chegar a determinado ponto, era suspenso por um gancho e sangrado por um homem. Este homem só fazia isso, que a carcaça do boi seguia pendurada de cabeça para baixo e já outro chegava ligeiro para ele sangrar. Os outros homens adiante, fazendo cada um o seu ofício, até que, no final cada boi já chegava todo dividido e separadas as suas partes estas ajuntadas, pá com pá, couro com couro, chifre com chifre, etc. dizia ele que cada operário especializado ganhava muito bem e executava o serviço com muita destreza e eficiência.

     Contando o que vai acima, lido daquele médico cujo nome não lembro mais, sem nenhuma intenção de aprovar ou reprovar, pois minha seara é outra há mais de 30 anos, e tendo me especializado nesta, confesso que sou totalmente ignorante, ou quase, na maioria dos outros ramos da atividade humana. Com isso, sei, tornei-me incompetente em outras atividades, de tal maneira que, se tivesse necessidade de deixar o trabalho que exerço por outro, dificilmente poderia me tornar produtivo.

     Mas eu falava do “MA KA ÇA” que vi escrito no frontispício de uma casinha da Rua do Orobó em Itaberaba e daí surgiu essa conversa toda. É que há poucos dias a televisão expunha uma epidemia que se iniciava no sertão e se apresentava, em meio a doentes e médicos reclamativos, hospitais insuficientes, políticos prometedores e autoridades preocupadas a figura de Manoel Cardoso, “curandeiro” em Itaberaba desde os meus velhos tempos. Quando lá cheguei, ele devia estar pelos seus 28 anos de idade, pos a reportagem lhe atribuiu agora 68 anos. De vez em quando os médicos do Estado o apertavam, mas ele continuava a exercer o seu ofício de aliviar sofrimentos pela fé dos doentes. O curandeiro existe desde que o mundo é mundo. Pelo que vejo noticiado nos jornais, não escapa nenhum povo sem o curandeiro, pois, na hora da desgraça, o sujeito apela para tudo na intenção de se salvar ou salvar o seu parente da morte ou do sofrimento. Através da reportagem fiquei sabendo que ele continuava a exercer o seu ofício e, agora, com mais prestígio e numerosa clientela, a ponto de merecer ser televisionado. O que quero dizer afinal é que esse homem, que conheci analfabeto, dedicou-se à profissão de curar. Certo ou errado – penso que mais errado do que certo – conseguiu se firmar e prosseguir durante mais de 40 anos gozando confiança de grande parte da população. Certamente com a sua persistência e dedicação, deve ter aprendido um bocado de coisa. Lembro-me de que a primeira vez que me encontrei com ele frente a frente, Manoel Cardoso saía da casa de um velho ferreiro, que, doente, solicita meus serviços. A primeira coisa que fez ao me ver foi pedir desculpas por estar ali, mas explicava que tinha sido chamado, “o senhor sabe eu vim só fazer uns passes e o resto é senhor”. Apertei-lhe a mão que me estendia e perguntei:

     - Como é o seu nome?

     - Eu sou Manoel Cardoso, moro ali na Rua do Orobó, todo mundo me conhece.

     Como não o conhecia, pedi mais detalhes.

     - A minha casa tem “as inicia de meu nome escrita na frente”.

     Foi aí que me lembrei do que lera algumas semanas antes: MA KA ÇA. Ele me explicou:

     - “ Mané KArdoso ÇAnto!”

     Queria o leitor perdoar o exagero do exemplo citado, mas serve para confirmar o que tenho declarado repetidas vezes a respeito do valor da dedicação e da perseverança que, como no caso, pode superar       a própria ignorância.

     Texto extraído do Livro BAMBANGA (Memórias) Vol. III de autoria de José Lemos de Sant' Ana / Médico, empresário, escritor

       Digitado por Luzanira Fernandes

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