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Muito prazer, meus pêsames

Mensalmente, vou à Rua Direita da Piedade, para cortar o que me resta de cabelos. A barbearia assumiu a filosofia do clube dos carecas – para pouco trabalho, pouco dinheiro. Além do mais é diminuta. Inúmeras cadeiras estão enfileiradas, enquanto os barbeiros e as barbeiras estão sempre a postos. Evidentemente que os seus jalecos poderiam ser lavados com uma frequência maior! Mulheres, homens, crianças, carecas e cabeludos, barbudos e imberbes, senhoras, balzaquianas e mocinhas fazem parte do mundo dos fregueses. Se o freguês desejar um barbeiro ou uma barbeira específica, declina o seu nome, ou simplesmente aponta, e aguarda a vez. Se, por outro lado, não fizer questão de profissional, aguarda também a chamada. O preço é sempre dez reais, e a rapidez é a tônica dominante. Como nunca fui exigente quanto aos cabelos, pouco me importei com eles e continuo a pouco me importar, ainda mais agora; sempre corto com quem aparece primeiro. Uns barbeiros  usam lâminas, outros não. Com a máquina elétrica, dão conta do seu trabalho mais rapidamente, e o crescimento também é mais célere. Se desejar fazer o uso de lâminas, devemos solicitar ao nos sentar na cadeira. Uns cortam demais, daí eu ter ficado quase dois meses sem retorno; outros cortam tão pouco que, uma semana após, estou tão cabeludo (que pretensão!) como dantes. Dentre todos os experimentados por mim, as mulheres não me pareceram as mais indicadas. Elas correm bastante e não querem muito papo, nem perguntaram sobre as lâminas. Muitas vezes, cortando com um barbeiro ou uma barbeira, sem preferência, poderemos cair na mesma tesoura daqueles a quem não demos boa nota para os cortes anteriores. Paciência. No máximo, dentro de trinta dias, todos os “pecados” são extintos. Por que esquentar a cabeça com isso?

     Como frequentemente acontece, dou uma passadinha no Largo Dois de Julho para comprar o pão e ver o burburinho local.

     As lembranças surgiram na mente: Onde anda Sócrates, aquele colega do Colégio da Bahia, o filósofo que havia encontrado no Bar Líder, depois de quarenta anos? De tanto andar e matutar, o leitor já deve estar pensando para onde fui.

     Fui tomar uma cerveja, de novo, naquela mesa onde tinha ouvido uma estória de Mil e uma Noites. Não contada, porém, por Sherazade, e sim pelo colega do seminário e dos tempos do científico no Colégio Central. Sentei-me àquela mesa, onde as estórias me foram contadas. Pedi uma cerveja e comecei a sorvê-la, a largos goles. Afinal de contas, tenho sempre a ideia de que, da cerveja, o primeiro é o melhor gole, primeiro copo e primeira garrafa. Os sabores se esmaecem, à proporção que os outros goles são ingeridos. Assim, o meu gole inicial é o mais longo possível, para que o néctar se prolongue por mais tempo. Depois é depois!

     Ainda com a taça forrada pela espuma fina, diviso uma figura, que mais fulgurava na mente do que nos olhos: ele, Sócrates. De novo? O abraço foi efusivo. Tão perplexo ele estava quanto o seu amigo. Uma coincidência! Nem pediu para se sentar, e ele foi logo arrastando a cadeira e se sentou. Convidei-o a compactuar comigo da cerveja quase finda. A aceitação foi imediata.

     - Hoje, o caso não pede vinho, só uma cerveja para esfriar a mente.

     A minha companheira, a curiosidade, não me deixa em paz!

     - Depois daquela, ainda há história? – perguntei.

     A existência por si só já é uma história. A existência é a história que será escrita, com letras ou com recordações. Todos os dias, escrevemos a história de nossas vidas. Cada um de nós escreve a própria história. O desenrolar da história, a confecção da história só tem um ponto final na morte. Se ela não for escrita nem lembrada, ela morre.

     Sócrates havia começado nova sessão dialética, não no estrado ou num divã, mas sim na cadeira de um bar.

     - O que foi desta vez, perguntei?

     - Rapaz, a vida é uma guerra de muitas batalhas. Umas são perdidas, outras, você ganha; algumas não perdemos nem ganhamos. Empatamos. E assim se vai. Incumbido pelo Criador de inseminar as fêmeas, de quando em vez, enfrento batalhas nesse terreno.

     - Fala rapaz! – eu estava deveras curioso.

     - Casado há uns quarenta anos, nunca neguei ao pai eterno o cumprimento de minha missão. Sabe como é: a mulher também vai ficando velha, e as emoções vão ficando maduras, chegando a secar e, às vezes, cair. Minha mulher não gosta mais de sair. Eu programei, com uma musa, para, no sábado à tarde, quando fosse possível, poder nos encontrar e cumprir os desígnios a mim confiados pela mãe natureza.

     Eu, naquele sábado, nada tinha de especial. Após o almoço, deitei-me para a sesta enquanto a minha mulher se deitou ao lado. Inesperadamente, o telefone toca. Rapidamente, eu atendi e entendi:

     - Certo. Tudo bem.

     - Quem é? – perguntou minha mulher, que parecia dormitar.

     - Morreu uma pessoa amiga, eu tenho que ir ao enterro – lhe respondi.

     - Eu vou também – me disse ela, quando estava me aprontando.

     Ela confirmou a sua decisão.

     - Eu estava estupefato! Argumentei como pude, para tirá-la daquela agrura numa tarde de sábado, com um calor daquele, ir para um enterro de quem não conhecia, era dose! Não houve jeito, ia porque ia.

     - Então vamos – disse eu, ainda na esperança de que ela desistisse.

     Nada. A sacana me acompanhou! Antes de entrar no elevador, eu já estava pensando:

     - Deus do Céu! Onde vou arrumar um enterro numa hora desta, para lavar esta mulher? Eu estava aflito. Pensei em mil e tantas hipóteses. O local mais lógico, para um enterro era o cemitério da Quinta dos Lázaros. A sua área de abrangência era maior, a população desassistida era maior, a criminalidade é mais acentuada. Haveria de acontecer mais mortes, é lógico. Deus não me deixar faltar um enterro numa hora desta.

     Tocamos para a Quinta dos Lázaros. Eu, com o coração nas mãos. Eu estava na perspectiva de ter que arrumar outra desculpa. Minha alegria foi indizível, quando comecei a ver a movimentação na porta do velório: luto, flores, choros... Havia enterro, graças a Deus!

     Estacionei o carro e, circunspecto, pegando na mão de minha mulher, entrei na capela, onde me deparei com um velório. Passei os olhos de soslaio e divisei uma senhora, de uns quarenta e cinco anos, chorava copiosamente; aliás, como todo pobre gosta de fazer.

     - Já deve até ter dado chilique – pensei.

     Acreditei que aquela senhora era a viúva.

     - E se eu estiver errado? Agora não era hora de conjecturas, avante, guerreiro!

     Aproximei-me da “viúva” (como eu haveria de saber se o morto era seu marido ou não?) e dei-lhe um abraço sentido, falando rapidamente da convivência que tinha com o falecido. Coisa muito rápida, para não dar, ratada. Apresentei-lhe a minha mulher, que lhe deu um beijo de condolências. Eu disse à “viúva” enlutada que sentia muito não poder  ficar mais tempo. Eu teria que sair imediatamente, para um compromisso inadiável. “A viúva” consentiu enquanto nos despedimos com intenso pesar. Eu juro, eu vi uma lágrima escorrendo dos olhos da minha mulher. Afinal de contas, não poderia ficar mais, para não haver qualquer chance de perguntas. Minha mulher achou estranho que eu tivesse saído logo. Eu lhe respondi que eu já ficando velho, não suportava mais as grandes emoções.

     - Meu amigo, fomos para casa e só tive mesmo que tomar uma cerveja para esfriar o juízo. São tantas emoções, como diz Roberto Carlos.

     Encerrada sua narrativa, perguntou-me:

     - E você? O que está fazendo aqui?

     - Vim cortar o cabelo na Rua Direita da Piedade e dei um saltinho aqui – respondi.

     - Eu também.

Como eu não estava a fim de muita conversa, após duas cervejas, nos separamos com um forte abraço.

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Texto extraído do livro Estórias de Todo Dia, de autoria de  Fernando Machado Couto. Médico, Escritor

Contato para aquisição do livro: Thyana Tel.: 071.9 9120.9337

(Postagem ou motoboy)

Texto digitado por Luzanira Fernandes

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