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Paternidade

Ouvi certa vez de uma senhora que “mãe não é a que pare, mas a que cria”. Queria ela dizer o que todos sentimos: não é o fato de dar à luz que faz a mulher mãe, se ela abandona essa criança. Aquela que cria – pode ser a própria mãe ou outra – dá e recebe afeto da criança, cuida e se prende ternamente a ela. Sente-se verdadeiramente mãe. A outra, a que abandonou, não deixou nada com que a criança se ligar a ela no futuro, nem levou talvez saudade. A saudade para existir é necessário que seja provocada por algum sentimento de amor, carinho, amizade, respeito. Quem abandonou seu filho ao nascer não tem, ao menos naquele instante, tais sentimentos.

       Tal fato porém é raro acontecer, pois a mulher, via de regra, ao dar à luz, passa a amar de logo a criança e a ela se prende com todas as forças d’alma. Não é raro porém acontecer com o homem que, tendo fecundado uma mulher, dela se afasta e muitas vezes não quer tomar conhecimento da existência do filho, com o que a mulher passa a se virar sozinha, a cuidar do ser que pertence também a ele. Não é necessário assinalar quantos casos todos nós conhecemos de pais que não colaboram em nada para o sustento do filho que sabe serem seus, deixando todo o peso da responsabilidade sobre a mãe. Esta se torna então mãe e pai.

       Certa  vez esteve eu meu consultório uma mulher já no último mês de gravidez. Deve compreender o leitor que o fato se passou em Itaberaba, único lugar em que cliniquei. Veio acompanhada de uma vizinha. Para os males de que se queixou, prescrevi receitas e tive de providenciar os medicamentos, pois não tinha com que adquiri-los. Trabalhava carregando água – por aqueles tempos não havia água encanada por lá – e não tinha marido. Perguntei onde estava o pai. – Desapareceu o “miserave” – foi a resposta. Passados dias veio o parto. Fui chamado à noite. Como de hábito nesses chamados noturnos, e tratando-se de pessoas sem nenhum recurso, já levava tudo na pasta, inclusive faixa umbilical, diferentemente de quando atendia gente de algum recurso que tem tudo em casa já adquirido com antecedência. Cheguei bem a tempo e o parto foi o mais natural e rápido. Nenhum  problema.

       Sim, nenhum problema durante o parto. Mas cadê os panos para enrolar a criança! Era inverno e lá no sertão o inverno ao invés de chuva faz é frio muito. Eu mesmo sentindo o frio daquela noite tinha saído de baixo do cobertor para o atendimento. Como não sou de perder tempo, sobre o pijama tinha vestido uma capa de chuva, daquelas antigas que não deixava passar o frio.

       - Cadê os panos para enrolar a criança? – perguntei.

       Via de regra mesmo nas casas mais pobres se encontra uns paninhos lavados e arrumados, embrulhados ou entrouxados para esse fim. Olhei e não vi no pequeno vão de quatro paredes que era toda a casa,, nem arca, nem embrulho, nem trouxa. Só lá no canto uma porção de trapos como uma ruma de retalhos ajuntados. Para lá ela apontou.

       Tá ali.

       Não era possível que eu fosse usar tais trapos sujos! Naquele  instante me pareceu que aquela mulher, no extremo de miséria a que chegara, voltara a ser guiada pelos instintos, e como um animal – uma ave, uma raposa – ajuntara naquele canto da parede os trapos que apanhara aqui e ali como a preparar um ninho. Mas não havia tempo a perder que o frio era forte, duas horas da madrugada e a criança estava nua. As roupas da mulher estavam sujas e com mal cheiro e ela só possuía aquelas peças que estavam no seu corpo. Não tive outra saída: desvesti minha capa, retirei o casaco do pijama e enrolei a criança. Revesti minha capa, sem o casaco do pijama. Não foi difícil, ao chegar em casa, convencer a minha mulher de que foi isso mesmo que acontecera.

 Mas até aí muito bem, só que após alguns dias sai a dita  mulher por mim assistida a mostrar pela rua o seu filho, dizendo:

       - O pai dele é Dr. José!

       Alguém veio ao meu consultório me avisar que ela estava ali perto, contando a todos o que eu tinha feito por ela e que eu era o pai.

       - Volte lá – redargui – pergunte a ela que eu mandei perguntar, porque ela acha que eu sou o pai.

       Logo voltou com a resposta:

       - Acho não! O pai dele passou a ser agora Dr. José que fez tudo por mim e por ele, pois o miserável que me enganou fugiu!

       Ainda bem. Por aí se vê que dentro de todos nós há um forte sentimento de respeito à paternidade, e aqueles que fogem para não colaborar com o sustento e os cuidados para o filho, são execrados. Essas pessoas contrariam a própria natureza. A mulherzinha certamente sentia-se orgulhosa com o novo pai que arquitetara no lugar do verdadeiro.

       De certo modo também nos negócios há pessoas que contrariam a natureza, desvinculando-se de quaisquer sentimentos para com os seus próprios negócios. Quero dizer, pessoas que criam uma firma e não se prendem a ela, não sentem apego ou amor ao que realizaram e, achando bom dinheiro passam adiante! Não, não pode ser. Eu cá por mim penso que se me obrigassem a me afastar do negócio em que estou não resistiria, de tal maneira meus sentimentos estão ligados a ele. Quando alguém se desfaz da empresa que construiu para ir tratar de outros negócios faz como um pai que abandona seu filho. Os próprios funcionários que continuam na firma hão de classifica-lo bem baixo na escala dos valores humanos. Aliás, ouvi isso de alguns funcionários antigos da firma onde isso se deu. O menor qualificativo era traidor.

Texto extraído do livro Ideias Bambangas (8° livro de memórias) de autoria de José Lemos de Sant’ Ana

Médico, Empresário, Escritor.



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