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Que horas são?

     O Seminário Central da Bahia era uma escola que reunia alunos vindos das mais variadas regiões, tanto do Estado, quanto do país. Havia seminaristas de quase todos os Estados da Federação.

     Cheguei no dia vinte de fevereiro, e as aulas já estavam em andamento. O dia oficial da entrada era oito de fevereiro. Os colegas já estudavam as declinações latinas e os números relativos da matemática. Já se falava em provas. Foi um susto danado. A conversa sobre provas se transformou, para mim, num tormento.

     Meu Deus! Prova de quê?! – os sinais mais e menos, os colchetes e as chaves abraçando os parênteses; as operações que envolviam frações que seriam somadas ou subtraídas, multiplicadas ou divididas.

     Os parênteses eram os primeiros a ser eliminados. Depois, eliminaríamos os colchetes e, por fim, as chaves – ensinava o padre Carlos.

Eu nada entendia. Aquilo era para mim, uma língua estranha.

     O padre Carlos, simplesmente, mandou que um aluno me desse umas aulas. Não me recordo a quem foi dada essa incumbência. O certo é que as aulas não foram dadas, e a missão não foi cumprida. Daí a oito ou dez dias – provas. Meu Deus! Prova?

     Um anguerense de onze anos de idade, “sequestrado” do ambiente familiar, vivendo num lugar tão diferente, com uma disciplina militar, rígida, com aulas ininteligíveis: nominativo, vocativo, dativo, ablativo e acusativo. Singular: nominativo rosa, vocativo rosa, genitivo rosae, dativo rosae, ablativo rosa, acusativo rosam; plural nominativo e vocativo rosae, genitivo rosarum, dativo e ablativo rosis, acusativo rosas. Acrescentaram as formas verbais sum, es, est, sumus, estis, sunt.

     Minha cabeça rodopiava. Cheguei a pensar em abandonar tudo e voltar para casa. Porém, voltar para onde, e para fazer o quê em casa? Anguera não possuía ginásio! Eu voltaria a ser balconista da venda de Elpídio? E isso era futuro?!

     - “Pai, passa de mim este cálice” – imitava Cristo, no meu calvário. Eu tinha mesmo é que ficar, “nem que a vaca tussa” como diria muito anos depois, a nossa filóm sofa presidente.

     Naquela época, eu já acreditava que tudo passava. È uma simples questão de tempo.

     Como era de se esperar, as notas das provas foram um fracasso. Nunca havia fracassado nos meus estudos. Em Anguera, estudava de madrugada com um candeeiro, já que, na cidade, não havia luz elétrica, e tirava boas notas. “Agora, me defrontar com o fracasso?!” – refletia. “Se tudo passa, isso também irá passar”.

     Passamos a riscar, na folhinha, os dias decorridos, e assinalávamos com a caneta, dia a dia, no calendário, aqueles que faltavam para as férias que mal tiveram fim. Lembro-me de cento e vinte e três dias. Quatro meses. Essa contagem já começava no dia da chegada ao Seminário.

     As férias de junho começavam no dia treze, após as provas semestrais. Era uma alegria só. Todos, contentes, planejávamos pegar a condução que nos levaria às nossas casas. Não dormíamos na véspera, de tão excitados que ficávamos. O regulamento era “rasgado”.

     Quando cheguei em casa, já nas primeiras férias, não mais reclamava da comida, vez que, no seminário, eu comia feijão com gorgulhos: pupas brancas, quando jovens, e cascudinhos pretos, quando adultos. Minha mãe notou que eu estava mudado. Na volta para o seminário, eu trouxe o meu relógio da marca Lanco, que havia deixado em casa. Notei que poderíamos usar relógio, a despeito de o regulamento falar o contrário. Por causa disso, havia deixado o meu em casa. À proporção que o tempo passava, foram-se criando laços afetivos com os colegas e uma melhor adaptação àquele novo mundo.

     Frederico foi o primeiro colega a se aproximar de mim. Começamos a conversar e a trocar ideias. Ele nunca havia tido um relógio, no entanto era tarado por horas. A cada instante perguntava:

     - Couto, que horas são?

     No primeiro ano, éramos trinta e oito alunos. A cada ano que se passava, o número de colegas diminuía. No sexto ano, dos colegas originais, só havia três. Frederico havia saído anos antes. Eu não sabia por onde andava.

     Saí do seminário e fui para o Colégio da Bahia. Dois anos após, já estava na Faculdade de Medicina.

     Já estudante de Medicina, eu passava pela Avenida Sete, à altura colégio das Mercês, numa das minhas infindas paletadas, quando dei de cara com um hippie sentado na calçada. Ele vestia um camisolão de chita. Estava barbudo, com os cabelos crescidos e descuidados vendendo bugigangas num pano escuro, pregado na parede do colégio. Olhei uma vez en passant. Mais uma vez olhei.

     Era Frederico. Trocamos poucas palavras. Eu tema aquele mundo em que ele restava situado. O nosso mundo era diferente. Saí rápido, questionando com os meus botões, a vida daquele colega.

     O tempo se passou, e não mais soube dele.

     Trinta anos se passaram.

     Nesse tempo, eu estava no Arquivo Público do Estado fazendo uma pesquisa sobre a família Couto – a minha família.

    Após vários dias de pesquisa, lá encontro Frederico, bem apessoado, vestindo trajes sérios, sóbrios e bem limpos. Logo  fui falar com ele. Foi uma alegria só. Havia se formado na Universidade Federal da Bahia, estava empregado e se encontrava ali para fazer uma pesquisa sobre capoeira. Nos seus estudos, objetivava ele saber se capoeira era dança ou arte marcial. Conversamos muito. Foi uma felicidade revê-lo triunfante.

     Ao nos despedirmos, olhou para o meu relógio e me perguntou:

     - Couto, que horas são? – continuava sem relógio.

 Nunca mais o vi. 

Texto extraído do livro Estórias de Todo Dia  de Autoria de Fernando Machado Couto. Médico, escritor

Contato para aquisição do livro ESTÓRIAS DE TODO DIA: Thyana

Tel.: 071.991209337 (Postagem ou motoboy)

Texto digitado por Luzanira Fernandes



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