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Suspense no leilão

 Morávamos em Itanhém, uma cidade que ainda estava em fase de consolidação. Lá somente havia uma agência bancária e poucas repartições públicas. Aos poucos, foram sendo instaladas outras, como o IBDA, a GERFAB, a CEPLAC etc. Cada nova repartição inaugurada trazia funcionários de fora que melhoravam o nível da cidade, carente de cultura. Como todos nós éramos de fora, procurávamos conhecer os recém-chegados dando apoio inicial e fazendo-os sócios daquela confraria não organizada.

     Eu mesmo me associei à república dos banebianos (funcionários do antigo BANEB) e lá vivíamos como um grupo de irmãos.

     O IBDA abriu uma agência na cidade, e Carlos, um agrônomo bastante simpático, a comandava. A GERFAB se instalou na cidade, e Aldemir era o veterinário chefe. Era uma figura bastante alegre, que eu já conhecia do restaurante universitário. Nereu era um veterinário que veio para comandar a CEPLAC, na época que iniciava suas atividades na área de pecuária. Convivíamos bem. Frequentemente fazíamos festas, churrascos, carurus, etc.

     Dentre os amigos, me recordo muito bem, havia Aldemir, que se casou com uma moça da cidade e nos levava frequentemente à sua casa por qualquer motivo. Se não houvesse festa ou motivos para comemorar, ele inventava. Era uma farra.

     Aldemir e família haviam convidado pessoas ilustres para um almoço “de gala” naquele domingo. Nós outros não tínhamos qualquer atividade para aquele dia e, dessa vez, não fomos convidados. Bebíamos na república uma cerveja, sem maiores emoções. E o tempo foi passando. Às duas horas da tarde, Aldemir vai nos chamar para consumir o almoço feito para os seus amigos que não vieram. Para nós, foi uma alegria só. Fizemos uma festa com acompanhamento de timbau, tocado pelo ilustre anfitrião. Foi um dos domingos alegres com que o imprevisto nos brindou em, Itanhém.

     Outra figura muito interessante era Nereu. Já tinha uns quarenta e cinco anos, idoso para o grupo, já que estávamos na casa dos vinte. Conheci essa figura na porta da pensão de Dona Nilde, onde se hospedava. Travamos grande amizade. Eu, já casado, levava-o, com frequência, para jantar lá em casa. Numa das vezes, trouxe a sua esposa, uma ruiva carioca, bastante calada, com um sorriso enigmático que lembrava o de Monalisa.

     Pouco tempo depois, ele levou uma jovem que havia sido sua aluna em Ilhéus, dizendo que era sua nova esposa. Ele denotava muito conhecimento geral, ao qual era acrescida uma estupenda quantidade de devaneios (que só vim a perceber mais tarde).

     Ele era bastante espirituoso. Manifestava conhecimentos de viagens espaciais, Física Quântica, politica, religião, parto de elefantes, astrofísica, afinações de berimbau etc. Sempre falava com propriedade.

     Eu havia me transferido para Caravelas, e ele para Teixeira de Freitas. A vida nos separou.

     Num domingo de outubro, havia uma exposição de gado em Teixeira de Freitas. Eu me desloquei de Caravelas para a exposição e lá me encontrei com ele – Nereu.

     Ele não possuía fazenda ou sítio, mas, como veterinário da CEPLAC, era muito conhecido dos fazendeiros. Ele me introduziu no recinto de leilões, onde jovens graciosas distribuíam whisky à vontade, a quem solicitasse ou não.

     Já tínhamos tomado boas doses da bebida (free mouth – boca livre total, como dizia Bigodinho, ilustre fofoqueiro de Caravelas) que nos tornava bastante alegres e eufóricos. O leilão corria naturalmente. Depois de observarmos os lotes ofertados, tentávamos adivinhar o preço do próximo arremate. Já havíamos acertado muitos lances ou chegávamos muito perto disso. Era evidente que, do meio para o fim do leilão o número de compradores estava diminuindo e como era natural, o preço também.  Mais uma dose de whisky.

     Foi apresentado um potro de boa linhagem, que, pelos lances anteriores, deveria ser arrematado por oito mil reais, aproximadamente. Começaram os lances: dois mil, dois mil e quinhentos, três mil, três mil e quinhentos, quatro mil, quem dá mais, quatro mil e quinhentos, cinco mil, quem dá mais? Mais um whisky. Vermelho e eufórico pela bebida, o meu amigo se levanta e grita: - Cinco mil e quinhentos. O leiloeiro gritava: - Quem dá mais? Cinco mil e quinhentos. Quem dá mais? – bradava mais alto.

     Meu amigo caiu na real: para que queria aquele cavalo? Onde iria coloca-lo? Onde arrumaria o dinheiro para pagar esse animal? – Dou-lhe uma, continuava o leiloeiro...

     “Este carrasco, não tem paciência para esperar mais?” – deveria estar pensando Nereu.

     - Quem dá mais? – o lazarento continuava a gritar!

     Nereu suava pela bebida, pelo calor e pela enrolada em que se metera, e suava, às bicas.

     - Dou-lhe duaaas! – gritava o leiloeiro.

     Nereu estava atônito. O leiloeiro já estava de olho nele. Quando levantou o malho, para fazer a entrega do prêmio, um filho de Deus gritou:

     - Seis mil!

     - Dou-lhe uma, dou-lhe duas e dou-lhe três. Ninguém dá mais? Entregue ao senhor de chapéu de aba larga da direita, faça um bom proveito – saudou o leiloeiro.

     - Pronto. Ufa! Seis mil eu não dava, não. Mas por cinco mil e quinhentos, era meu – resmungou o garganteiro.

     Findo o leilão, nos despedimos para nos encontrarmos muitos anos depois.

     Nereu havia comprado uma fazendinha próxima à minha, nas imediações de Itanhém.

     Ele não fez qualquer benfeitoria, nunca foi lá nem nunca pôs cabeça de gado nessa fazenda. Não demorou muito, deu ao antigo proprietário para vender.

     O Sr. Nelito veio me propor a compra, e eu comprei. Paguei direitinho.

     Quando fui passar a escritura, havia cento e cinquenta cabeças de gado escrituradas na fazenda, e nenhuma no pasto. Como fazer uma escritura sem a transferência do gado? Foi problema que tive que resolver com o pessoal da GERFAB.

     - Como fazer? – me perguntaram.

     - Eu sei lá! Matem todas, deem por roubadas – disse eu.

     Não sei o que fizeram, mas o documento foi passado normalmente.

     Os amigos comuns diziam que este grande número de animais era para Nereu impressionar as pessoas, exibindo um rebanho que nunca teve.

      Texto extraído do livro Estórias de Todo Dia

      Autor Fernando Machado Couto. Médico, escritor.

     Contato para aquisição do livro ESTÓRIAS DE TODO DIA: Thyana Tel.: 071.991209337 (Postagem ou motoboy)

     Texto digitado por Luzanira Fernandes

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