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Velharias

Um amigo em conversa me disse que encontrou alguém que lhe afirmara há tempos ser a firma onde trabalhamos uma velharia. Idéias antiquadas, ultrapassadas, métodos obsoletos de trabalho etc. Dizia o genial e moderno comerciante que ele já estava computadorizado e com gabinetes modernos de trabalho. Basta dizer, dizia o meu amigo, que ele se considerava tão modernizado que tem duas secretárias, uma na própria sala, outra em sala contínua para atender os telefonemas, selecionar os visitantes que devem ser recebidos etc., tudo no estilo que é visto nos cinemas americanos.

      - Puxa – disse eu – é mesmo fabuloso este rapaz!

      - Eu, com quase 50 anos de trabalho no comércio, só a uma funcionária trato como se fosse secretária, não da firma, mas pessoalmente minha, pois bate à máquina no seu horário de serviço o que escrevo. Para receber pessoas jamais precisei de secretária, pois quem quer que seja a falar comigo é só entrar no salão e se encaminhar para minha carteira.

      - Mas – agora já é o meu amigo que interroga – você não marca horário para os de fora que lhe visitam? Não tem uma precedência para os que esperam ser atendidos?!

      -Via de regra, a precedência é a chegada, isto é, quem chegou primeiro, em primeiro lugar, mas há um jeito de fazer as exceções.   

      Então expliquei como vai adiante. Os pracistas formam o seu grupo e vão sendo atendidos por precedência de chegada. E nem todos vêm a mim mas a outros departamentos. Se, ao estar atendendo um deles, aparece um desses diretores de firma que sempre têm hora marcada pra tudo – é, tudo mesmo, até para o que você leitor está pensando -, aviso ao pracista que permaneça sentado à minha mesa e peço licença para atender o “diretor”. De pé, saúdo-o apertos de mão, palmadinhas etc., e passo a percorrer o escritório, como a lhe mostrar o funcionamento, mas na verdade vou logo entrando no assunto da visita e explico que eu, como ele, devemos estar cansados de ficar sentados. Nesses casos é bom esticar as pernas. Enquanto passeamos, conversamos, discutimos negócios etc. Logo eu vejo que está concluído o interesse da conversa, ofereço-lhe uma lembrança, geralmente um livro e ele compreende que é hora de sair e se despede. Quando há poucos pracistas, há jeito de esses visitantes ilustres sentarem comigo à minha mesa.

      Será esse método uma velharia?

      E o que será modernidade? Fugir ao credor: está gripado, não veio hoje, acabou de sair etc. Não consigo me adaptar a este tipo de modernidade. Se as coisas estão boas, pode ser que me afaste mais facilmente para atender a algum compromisso imprevisto ou impostergável, mas, via de regra, marcamos sempre outros compromissos para horários fora daquele em que todos sabem que estou à disposição diariamente na firma. Até hoje não consegui me adaptar à modernidade da atendente de telefone que, quando a gente diz que quer falar com seu fulano de tal, ela pergunta logo: “quem gostaria de falar com ele?” Não sei por quê, fico sempre desconfiado de que, depois de saber o nome de quem o procura, o gajo cai decidir se está ou não está presente na casa. Isso não pode se dar na minha firma, onde a telefonista não pode perguntar quem está querendo falar. Ela simplesmente fará a ligação para a seção competente, para mim ou outro qualquer diretor, até para o diretor-presidente. Ainda mais: se o ramal estiver ocupado, ela pode ligar para um ramal próximo pedindo a quem atender para avisar a pessoa que tem alguém mais que lhe quer falar.  Portanto, até pelo telefone ninguém se esconde!

      Aqui em Salvador, há muitos anos – muitos anos mesmo! -, um experiente comerciante resolveu criar um laboratório farmacêutico. Para concretização da coisa, entregou a seu jovem filho, nos seus 22 anos, rapaz de idéias avançadas e progressistas. O rapaz fez a coisa o mais moderno que se pode pensar. Basta dizer que tinha uma máquina capaz de lavar, encher, vedar e rotular 20.000 frascos de xarope por dia. O leitor pode avaliar o que ia pelo resto. Só que, no caso dos xaropes venda prevista não atingia 15.000 unidades por mês! Então, a máquina do xarope funcionava menos de um dia e ficava parada 29 dias no mês. Passaram-se anos de prejuízos e foi toda a instalação vendida para outra cidade.

     Há uma impressão dos inexperientes de que os que usam velhas experiências são antiquados. Antes é preferível que eles aproveitem a experiência. Antes é preferível que eles aproveitem a experiência. É verdade que os velhos hábitos às vezes se arraigam de tal maneira que impedem o progresso. Mas a própria velha experiência conduz no momento oportuno os bons comerciantes a aproveitar as novas idéias, as novas máquinas e os jovens realmente preparados teoricamente e portanto competentes a adaptar as práticas já conhecidas com as suas novas teorias.

      Às vezes na mente de alguns jovens não penetra a noção de que, mesmo as modernidades que eles defendem, não foram criadas por eles mas por outros antes deles, e mesmo as chamadas coisas novas não surgem de repente. Até a chamada criatividade só se manifesta firmada em bases já existentes. Quero dizer é sobre os alicerces do passado que se pode construir alguma coisa. Sem eles havia de se inventar a roda novamente, começando tudo de novo até chegar ao computador. Um trabalhão! Portanto, é sobre as velharias que os jovens competentes reformam e renovam, ativando o progresso humano.

Texto extraído do livro Bambangas (Volume III) de autoria de José Lemos de Sant’ Ana . Médico, Empresário, Escritor.

Texto digitado por Luzanira Fernandes


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